Ainda não mataram Odete?
*Por Davi Lemos
Na segunda passada, ligo a TV e descubro que Odete ainda está viva e de casamento marcado. Sinceramente, pensava que já estavam à procura de Leila que, em 1988, foi a responsável pelo assassinato da famosa megera da teledramaturgia: Odete Roitman.
A surpresa tem um porquê. A última novela a que assisti com particular atenção foi também a última assistida por meu pai, Êta Mundo Bom, exibida em 2016. Meu pai, Seu Dodó, identificava-se muito com o personagem Candinho, interpretado por Sergio Guizé. Ele dizia que a trajetória da personagem lembrava a juventude dele, saído de Irará para tentar a vida em Salvador.
Mas, retornando à novela atual (um remake de Vale Tudo), eu tinha a viva memória – demonstrada falha – de que Odete Roitman havia sido morta já no início da trama. Em 1988, eu tinha sete anos e só lembro de lampejos da trama, a exemplo de somente alguns lances que recordo de quando o Baêa levantou a taça de campeão brasileiro.
Mas, como quem caiu de paraquedas, estranhei a narrativa da atual Vale Tudo, tanto no merchadising descaradíssimo [com uma marca de tinta e com uma máquina de cartões] quanto na apresentação de pautas de “agenda” como o etarismo (uma personagem começou um relacionamento com um homem bem mais novo; e também a Odete que casou com um personagem bem mais novo) e sobre a assexualidade heteronormativa de um outro casal.
Assistindo ao episódio da trama, percebi tanto os comerciais quanto os temas apresentados como, a meu exemplo, similarmente caídos de paraquedas em meio aos diálogos. Mas o estranhamento na construção daqueles diálogos pode ter sido fruto de quem não assistiu a episódios anteriores de Vale Tudo.
Não há uma promessa de continuar assistindo à novela, mas talvez rememorar as interpretações que eu tinha, aos 7 anos, sobre elementos da trama. Na canção da abertura, Brasil, quando Gal Costa cantava “meu cartão de crédito é uma navalha”, eu imaginava um cartão que tinha sido afiado para corte; entender, tempo depois, que Cazuza falava realmente de uma navalha deixou a coisa menos interessante.
Por enquanto, vou mudando a pergunta: quando vão matar Odete Roitman? E será a Leila?
*Davi Lemos é jornalista








