segunda-feira, 25 de outubro de 2021

A ciência conduziu os magos à manjedoura do Criador – por Davi Lemos

Foto: Reprodução

Davi Lemos*

“Deus dispôs todas as coisas com medida, quantidade e peso”. A afirmação que está no capítulo XI do Livro da Sabedoria – presente na bíblia de católicos e ortodoxos – explica por que a observação da natureza pode conduzir às verdades divinas. Assim Melchior, Gaspar e Baltasar caminharam, seguindo o sinal de uma estrela, até a manjedoura do Deus Menino, na cidade de Belém. Hoje, 6 de janeiro, os católicos ocidentais celebram a Epifania – quando os magos (homens sábios, cientistas da época) apresentaram presentes (incenso, ouro e mirra) ao recém-nascido. Católicos orientais e cristãos ortodoxos celebram neste mesmo dia o Natal.

O historiador da ciência e doutor em teologia e física, padre Stanley Jaki (1924 – 2009), afirmava que a referida citação do Antigo Testamento encorajou os religiosos ao desenvolvimento das ciências sem receio de que isso fosse anular ou invalidar a fé. “A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade”, escreveu o papa São João Paulo II na Carta Encíclica Fides et Ratio, publicada em 1998.

Os magos que foram ao presépio de Belém representavam os povos “pagãos”, ou seja, aqueles que não integravam a primeira aliança firmada por Deus com Israel. Não eram judeus. Segundo São Beda (673 – 735), Melchior tinha 70 anos, cabelos e barbas brancas e era proveniente de Ur dos Caldues, atual Iraque. Gaspar “era um moço de 20 anos, robusto”, vindo de região próxima ao Mar Cáspio. Já Baltasar era mouro, de barba cerrada, próximo dos 40 anos, e proveniente do Golfo Pérsico.

O caminho dos reis magos passou pela observação da realidade, mas também pelo encontro com o Rei Herodes e com os teóricos da Escritura, ou seja, precisaram aliar fé e razão para encontrar um local específico. No caso de Gaspar, Baltazar e Melchior, a fé não os afastou da realidade, mas deu aos magos garantias para compreendê-la.

O historiador norte-americado Thomas Woods Jr, doutor pela Universidade de Columbia, afirma que a crença em um Deus transcendente que dotou a criação de leis físicas consistentes (as questões da “medida, quantidade e peso”) além de incentivar o consistente desenvolvimento da ciência, deu aos religiosos cristãos uma “insaciável curiosidade” pelas coisas criadas – e eles poderiam manipulá-las, pois, no entendimento cristão, criaturas não seriam vistas como divindades intocáveis.

O franciscano Roger Bacon (1214 – 1294), considerado pai do empirismo, definiu que, “sem experimentos, nada pode ser adequadamente conhecido. Um argumento prova teoricamente, mas não dá a certeza necessária para remover toda a dúvida”. Seguindo o itinerário dos magos, a Igreja jamais deixou de observar o céu – possui, desde 1824, 73 observatórios no mundo operados por jesuítas. Um deles, o padre belga Georges Lamaitre (1894 – 1966), foi o criador da teoria do “Big Bang”. Assim como os magos pagãos, observando as estrelas, encontraram o Criador; o sacerdote belga enxergou o início da criação. Fez-se a epifania.

*Davi Lemos é jornalista

06 de janeiro de 2021, 19:20

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