terça-feira, 21 de setembro de 2021

Artigo: Viva São João! Em agosto? Também

Foto: Divulgação

Davi Lemos*

Na classe dos santos católicos, há somente três cujos nascimentos e mortes são lembrados no calendário litúrgico: o próprio Jesus Cristo (segunda pessoa da Santíssima Trindade), a Virgem Maria, mãe de Jesus, e São João Batista, cuja festa mais célebre é o nascimento celebrado em 24 de junho, origem da mais popular festa junina – esta é a única data referente ao Batista lembrada também popularmente.

A morte pela via do martírio do primo de Jesus seria lembrada no último dia 29 de agosto se a data não tivesse coincidido com um domingo, quando se torna obrigatória a celebração da liturgia dominical.

João Batista, cujo nascimento é celebrado seis meses antes do Natal de Cristo, era primo de Jesus e filho de Santa Izabel, que o concebeu mesmo sendo idosa, segundo o relato evangélico. A memória do martírio começou a ser feita no século V, na França, e foi adotada em Roma no século VI – a origem da comemoração remonta à construção de uma igreja em Sebaste, na Samaria, local indicado como o túmulo do precursor de Jesus.

Jesus, segundo o relato de São Lucas, nutria grande admiração pelo primo. “Na verdade vos digo, dentre os nascidos de mulher, nenhum foi maior que João Batista”. Como precursor, João iniciou pregação de conversão dirigida aos judeus e batizou Jesus no rio Jordão. Este momento marca o início da vida pública de Cristo, sobre o que disse o Batista: “é importante que ele cresça, e eu diminua”.

A morte do Batista, lembrada em 29 de agosto, tem ligação direta com este trabalho de anúncio da chegada do Messias. Por não ter medo de denunciar o adultério cometido pelo rei Herodes Antipas, que vivia com Herodíades, esposa do irmão dele, João acabou preso.

Enquanto permanecia na prisão de Maqueronte, na margem oriental do Mar Morto, a denúncia do Batista continuou incomodando Herodíades. Mesmo com o santo preso há três meses, a mulher de Herodes pediu à bela filha Salomé, exímia dançarina, que se apresentasse ao rei Herodes. Inebriado com a dança, o monarca disse que daria a Salomé até metade de seu reino, mas, influenciada pela mãe, ela pediu a cabeça de São João em uma bandeja. “Quero que me dês imediatamente num prato, a cabeça de João, o Batista” (Mc 6,25). Assim foi feito.

O martírio do Batista é narrado no Evangelho de São Marcos e, segundo relatos da Tradição, ocorreu um ano antes da Paixão e Morte de Cristo. O filho dos santos Izabel e Zacarias era um homem de altas virtudes e de prática de rigorosas penitências – ficou notabilizado por anunciar a chegada de Cristo, ainda um anônimo nazareno quando João iniciou seu ministério.

A respeito dele, pode-se dizer que foi cumprida a profecia do anjo que anunciou a sua concepção mesmo diante da idade avançada de seus pais: “Ele será grande perante o Senhor; não beberá nem vinho, nem bebida fermentada, e será repleto do Espírito Santo desde o seio de sua mãe. Ele reconduzirá muitos dos filhos de Israel ao Senhor seu Deus: e ele mesmo caminhará à sua frente”, diz o relato de São Lucas.

A morte de São João Batista é considerada por autores modernos como o martírio de uma figura politicamente incorreta – assim destaca, por exemplo, Ciro Sanches Zibordi. Por não agradar a todos, o Batista perdeu a cabeça, mas está firmemente cristalizado na devoção popular. Viva São João!

*Davi Lemos é jornalista

31 de agosto de 2021, 15:43

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