quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Ativista Cetilá Itas fala sobre dificuldades, perseguições e falta de apoio ao movimento ‘Vidas Negras Importam’

Foto: Reprodução

Thyara Araujo

A estudante de Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Cetilá Itas, de 34 anos, fundadora do movimento brasileiro “Vidas Negras Importam”, conversou com o Toda Bahia na tarde desta quinta-feira (29). Ela falou sobre as dificuldades enfrentadas por ativistas, saúde mental, falta de apoio e revelou sofrer constantes perseguições e ataques racistas.

Inspirado no movimento americano Black Lives Matter, o “Vidas Negras Importam” foi fundado em 2015, em Salvador, após Cetilá desenvolver o projeto “Itinerante Próxima Parada” – que promove e incentiva o hábito da leitura e da escrita para população em situação de rua.

Cetilá durante ação do ‘Vidas Negras Importam’

“A partir da experiência com o ‘Próxima Parada’, fiquei muito reflexiva, pensando que na rua não há somente questões relacionadas às drogas. Existem famílias e uma série de narrativas diferentes das que as pessoas atribuem. Também vi como é importante convencer pessoas de diferentes realidades da sociedade a irem às ruas conhecer a vida de vários sujeitos que são ‘invisibilizados’ socialmente”, afirmou.

Atualmente, o “Vidas Negras Importam” está parado. Alguns dos motivos são explicados pela ativista: “sofremos violências e agressões por acharem que somos de algum partido. Acham que somos do PT, PSOL, e de outros, mas não somos de nenhum partido. Pensam até que recebemos dinheiro do exterior. Já cheguei a dialogar com ativistas de outros países, mas nunca estabeleci relação de codependência com essas pessoas. Somos sujeitos da sociedade civil que nos sentimos no direito de reivindicar, de realizar nossas ações, sem necessariamente sermos de um partido”.  Além disso, ela destaca a falta de suporte de outros grupos, questões de saúde mental e insegurança com relação à própria vida.

Emocionada, Cetilá afirmou ao Toda Bahia que já sofreu muitas perseguições e ataques racistas e, por diversas vezes, teve sua vida desestabilizada.

“Ninguém escolhe ser ativista porque é super agradável. Ser ativista é necessário. Somos muito fortes em lidar com tantas questões e desigualdades e continuar lutando pela vida. Quando me propus a realizar esse trabalho eu não tinha consciência política ainda sobre o que poderia vir a acontecer. Sofri muitas perseguições, fui violentada, assediada, cheguei a lutar com dois homens, tive minha vida desestabilizada várias vezes e não tive um amparo como pensei que teria. Como mulher negra eu não tenho o mesmo suporte que uma mulher ativista branca tem em ser assistida em situação de violência”, disse.

Apresentação cultural promovida pelo movimento (Foto: Divulgação)

Ainda de acordo com a ativista, ela pretende retomar o movimento, mas em momento oportuno.

“O nosso silêncio não tem sido de apatia, tem sido uma forma de um grupo se reestabelecer e se cuidar para voltar mais forte. Vamos voltar no tempo certo, retomando os encontros para dialogar com a diversidade da nossa comunidade, nos reconhecendo como família para fazer essa difícil travessia de luta por equidade, igualdade e respeito a nossa história, memória, identidade…”, afirmou.

Questionada sobre a abertura para receber novos apoiadores, a ativista desabafou: “não dá pra recrutar pessoas se eu não tenho a minha vida. Eu quero viver. Eu já não tenho mais saúde física como eu tinha antes, porque estou sendo ‘atropelada’. Não me respeitam porque eu não sou filha de militante. Amo minha vida. O único problema que tenho nela é o racismo. Grupos me atacam porque sabem da minha situação financeira vulnerável. Desde criança sofro violência racial…”.

“Uma questão importante pra se refletir é que todo mundo fala “vidas negras importam”, mas nosso movimento não tem apoio”, concluiu a ativista.

Itinerante Próxima Parada

Iniciado em março de 2014, o projeto, de acordo com Cetilá, tem o objetivo de reduzir danos decorrentes do uso abusivo de álcool e outras drogas, romper paradigmas a cerca da situação de rua e ressignificar as emoções das pessoas envolvidas, além de atribuir valor não financeiro para adesão de livros.

Cada intervenção é realizada em pontos de parada de ônibus, onde há concentração de pessoas em situação de rua e população em geral.

Atualmente, o projeto também está parado.

Nesta semana, a ativista publicou nas redes sociais um vídeo falando sobre a saúde mental de ativistas. Confira:

Veja outras fotos do movimento “Vidas Negras Importam”:

Foto: Divulgação
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29 de julho de 2021, 19:10

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