quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Crítica: Com final icônico e hilariante, Free Guy surpreende pela originalidade

Foto: Divulgação

Alexandre Reis

Não é novidade que o universo cinematográfico e dos games se retroalimentam constantemente, mantendo um diálogo criativo que tem sido lucrativo para os dois lados nas últimas décadas. Claro, nem sempre o resultado deste “casamento” é um produto elogiado pela crítica ou pelos jogadores mais exigentes, mas de vez em quando a química dá certo. Esse foi o caso, em 2018, da aventura Jogador Nº 1, de Steven Spielberg, e, agora, da comédia Free Guy: Assumindo o Controle, que está em cartaz nos cinemas, com direção de Shawn Levy (Uma Noite no Museu).

Em comum, os dois filmes têm referências pop divertidas dos dois universos e histórias inspiradas em jogos on-line de videogame em primeira pessoa. Mas é só isso. Enquanto Jogador Nº 1 é um filme conceitualmente mais complexo, com efeitos visuais incríveis e assinado por um grande diretor, Free Guy apresenta uma história 100% original (não foi baseada num livro, como a película de Spielberg) e que entretém o público sem precisar de tanta sofisticação, mas entregando ao expectador aquilo que promete com competência.

O roteiro do filme parte de uma ideia promissora: um personagem não-jogável (em inglês, a sigla é NPC) de um famoso game, que pensa viver num mundo real como bancário, descobre um jeito de assumir o controle do próprio destino depois de encontrar a mulher que ama. Essa mulher é o avatar criado por uma jogadora que busca dentro do jogo um segredo escondido para resolver uma disputa comercial na qual está envolvida.

Para se tornar digno de ajudar o amor da vida, Guy, o nome do NPC que não sabe estar em um jogo de videogame, decide colocar alguma ordem ao caos instalado naquilo que ele conhece como realidade, repleta de situações extremamente absurdas e de déjà vu (como tem que ser um simulacro, tal qual a premissa da trilogia Matrix, por exemplo, só que hiperbólica).

Enquanto os demais personagens que têm vontade própria (avatares de jogadores) preferem o caos, a violência e o crime para ganhar dinheiro, recursos (armas e equipamentos) e subir de nível, Guy opta por fazer o bem, se tornando um sucesso entre os fãs do game, que acreditam estar diante de um player anônimo, pois NPCs só deveriam, teoricamente, fazer figuração.

Roteiro e direção sustentam atuações

Quem incorpora o protagonista de Free Guy é Ryan Reynolds (Deadpool), que, apesar das limitações, tem um desempenho convincente aparentando interpretar a si próprio o tempo inteiro – e fazendo piada sobre ele mesmo. Aliás, a atuação do comediante lembra muito a do filme do anti-herói da Marvel, com exceção da violência e das piadas politicamente incorretas ou de cunho sexual, salve aquelas sobre a virgindade do NPC de 40 anos. Ao contrário de Deadpool, Free Guy: Assumindo o Controle é um filme censura livre.

O versátil neo-zalandês Taika Waititi deixa a desejar no papel do vilão dono do jogo no qual Guy é um NPC que ganha o livre arbítrio. O ator tenta fazer a caricatura de um empresário megalomaníaco e egocêntrico, mas simplesmente não é engraçado, apesar de se esforçar, mesmo com o sotaque que logo nos remete ao Hitler imaginário (e caricato) que ele tão bem deu vida em Jojo Rabbit, filme que conquistou os amantes da sétima arte – Taika Waititi roteirizou, dirigiu, produziu e atuou nesta premiada obra que retrata a guerra aos olhos de um menino alemão nazista.

Os pontos fracos do elenco são superados por um roteiro e uma direção afinados, com boas piadas, efeitos visuais agradáveis, muita câmera lenta e um ritmo bem dosado entre os dois universos da história, o do game e o real, que existe fora dos servidores. Ao mesmo tempo em que diverte e faz rir, Free Guy ainda tem como mérito, e assim deve ser uma comédia digna de nota, sutilmente convidar a plateia para refletir sobre temas da atualidade, a exemplo da luta entre o bem (inclusive a que travamos internamente), as relações simuladas, o vício por jogos violentos e até um tema sempre tão caro à ficção científica: o avanço da inteligência artificial.

Música para várias gerações

A música está sempre presente no filme, tornando a trilha sonora, dirigida por Christophe Beck (Frozen e Homem-Formiga), um ponto fortíssimo a favor de Free Guy. Além das faixas instrumentais assinadas por Beck, a seleção de canções cumpre o papel de tornar o filme mais atraente para um público que não é apenas o da atual ou da última geração, acostumado a jogar on-line em consoles de última geração e games classe AAA, mas também para quem começou na brincadeira off-line, no fliperama, Atari ou Nitendo.

No filme, por exemplo, estão músicas como Make your own kind off music, gravada por Cass Elliot, ex Mamas and The Papas, no final da década de 1960, e Fantasy, de Mariah Carey, a canção destacada em Free Guy por conta da abertura minimalista. Uma das cenas mais marcantes, no entanto, é quando Guy e a amada literalmente voam por uma janela em uma motocicleta ao som de Baba o´Riley, da banda de rock The Who, da década de 1970.

Mesmo com duas horas de duração, o filme não cansa porque consegue envolver o expectador do começo ao fim, guardando um final icônico e hilariante, repleto de referências para várias gerações que amam a sétima arte, os games e até os quadrinhos. Free Guy é diversão garantida para toda a família, sem risco de errar.

29 de agosto de 2021, 23:06

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