segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Rapidinhas: A nova teofania da cultura

Foto: Reprodução/Facebook

Davi Lemos

“Não há cultura sem culto, da mesma forma que não há culto sem cultura, são duas expressões do mesmo fenômeno teofânico”. Foi o que escreveu no Facebook, na quarta-feira (5), o secretário nacional de Fomento e Incentivo à Cultura, André Porciúncula, ao comentar matéria crítica realizada pelo portal UOL por encontro virtual realizado por ele na qual orientou lideranças cristãs a conseguirem acesso a recursos via Lei Rouanet. Porciúncula resgata um dos entendimentos de cultura como consequência do culto de um povo – no caso específico o culto cristão. O capitão da PM da Bahia, à frente da pasta que libera recursos para projetos culturais, vem causando perplexidade na chamada “classe artística” e na esquerda. Nota: teofania significa manifestação de Deus ou de uma divindade.

Cisão

Há uma inegável cisão no governo Jair Bolsonaro com as administrações anteriores que não davam grande importância à relação entre expressão artística e fé, notadamente a cristã – por incompreensão do sentido de estado laico, as gestões anteriores conseguiram abrir espaço para a confusão entre laicidade e ateísmo. Como ensinou Santo Tomás de Aquino, “a alma é, de algum modo, tudo”, e é este “tudo” que orienta o senso religioso que, no entendimento filosófico cristão, orienta a pessoa. Ainda que a experiência religiosa possa conduzir ao ateísmo ou ao agnosticismo, estas visões são minoritárias no Brasil e não podem ser privilegiadas no Brasil, pelo que se depreende das ações do atual governo frente à cultura.

Recursos

Na matéria do UOL comentada por Porciúncula, foi citado que, em março, havia pelo menos R$ 477 milhões de recursos para projetos já aprovados, porém não homologados. O secretário argumenta, por sua vez, que a reclamada demora não existe – ocorre, segundo a declaração ao UOL, atraso nas auditorias de 20 mil projetos, cujas prestações de contas sequer foram avaliadas. Ainda sobre a live com lideranças cristãs, os deputados Túlio Gadêlha (PDT/PE) e Benedita da Silva (PT/RJ) enxergaram nisso razão para mover ação judicial para afastar Porciúncula do cargo – ele, conforme expressou nesta quinta-feira (6), no Facebook, enxergou nisso prova da cristofobia denunciada pelo presidente Bolsonaro.

Pouca novidade

O ex-ministro da Saúde, Henrique Mandetta (DEM), ainda é a preferência do presidente nacional do DEM, ACM Neto, como candidato à Presidência da República em 2022. Antes de Ciro Gomes (PDT), a preferência é pelo ex-titular da Saúde até o início da pandemia. Mas a atuação de Mandetta na CPI da Covid, além de não trazer novidades, somente informações já de conhecimento público e prévio, foi vista por alguns opositores de Bolsonaro como aquém do esperado. Além disso, o defensor da ciência chegou a sugerir que “canja de galinha” pode ser bom tratamento, segundo ensinava a vovó. Os bolsonaristas, a exemplo do ministro das Comunicações Fábio Faria, já trabalham para expor a ineficácia do “protocolo Mandetta”: apenas buscar atendimento quando já não conseguisse respirar. Segundo opinião de diferentes infectologistas, a recomendação foi tão fatal quanto apostar em hidroxicloroquina.

O novo Patinhas

Em política, é preciso muitas vezes mudar de opinião ou de estratégia com muita velocidade, e o marqueteiro João Santana, o Patinhas, pode ser apontado como um exemplo recente disso. Agora responsável por trabalhar a imagem do presidenciável Ciro Gomes (PDT), Santana já não deve achar que Lula é o candidato a vice ideal na chapa do pedetista (ou de Jaques Wagner), como havia declarado ao Roda Vida em outubro de 2020. Twitter, Ciro divulgou um vídeo no qual afirmou, na legenda, que “Lula deu pouco para os pobres e muito, mas muito, para os ricos”. Esse tipo de declaração deve afastar o petista do pedetista e denota uma mudança rápida de pensamento de Santana. Neste cenário, Ciro e Patinhas tornam-se adversários mais perigosos para Lula que o próprio Bolsonaro, uma vez que o marqueteiro conhece as qualidades e os podres do ex-presidente.

06 de maio de 2021, 19:58

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