terça-feira, 23 de junho de 2026

‘Não vejo perspectiva de uma solução autoritária no Brasil’, diz Moro

Foto: Antonio Cruz/ Agência Brasil

Da Redação

O ex-ministro da Justiça e Segurança Pública do Brasil, Sérgio Moro, concedeu entrevista ao Expresso, jornal português publicado aos sábados. Na oportunidade, ele falou sobre a corrupção no país, disse que não vê “perspectiva de uma solução autoritária no Brasil” e que seu “relacionamento pessoal com Bolsonaro não era profundo, era normal”.

“Desde a ditadura militar, a democracia nunca esteve tão ameaçada no Brasil. Acredita que existe um risco de golpe militar?”, questionou a publicação.

“Não, são ameaças vazias. Estive no Governo, tive contato com alguns militares e ainda tenho. Não vejo perspectiva de uma solução autoritária. A invocação dessa possibilidade por uma parte de  apoiantes do Presidente é algo que gera instabilidade indesejável. Afeta a imagem internacional e
prejudica a própria economia, tanto para investidores internos como externos. O Brasil é uma  democracia madura, as instituições estão consolidadas, vivemos um momento de turbulência, não só político, mas também em decorrência da pandemia e das suas consequências econômicas. Mas
a saída autoritária não vai acontecer”, afirmou Moro.

Questionado pelo jornal sobre em que momento ele percebeu que o combate à corrupção não era uma premissa de Bolsonaro, Moro afirmou:

“Entrei no Governo com o compromisso de que avançaríamos na agenda anticorrupção, contra o crime organizado, a criminalidade e a violência. Nos dois últimos aspectos acho até que fomos bem-sucedidos, tanto em ações legislativas relevantes como nas ações executivas. Tivemos uma queda expressiva dos indicadores criminais no Brasil durante 2019. Já a agenda anticorrupção pouco avançou e um dos motivos mais importantes foi a falta de apoio por parte do Palácio do Planalto [sede da presidência]. No relacionamento com o Congresso é fundamental ter o empenho do Presidente. Percebi que isso não vinha ocorrendo em vários momentos, entre eles quando houve a transferência do COAF, a nossa unidade de inteligência financeira, responsável pela prevenção da lavagem de dinheiro, do Ministério da Justiça para o da Economia. Depois houve uma decisão do Supremo Tribunal Federal suspendendo quase todas as investigações que  envolviam lavagem de dinheiro, e um dos beneficiados era o filho do Presidente. Não vi nenhuma reação do Planalto. A decisão no fim foi caçada, numa liminar [providência cautelar], mas se isso não tivesse ocorrido iríamos ser uma espécie de paraíso fiscal. Também o projeto de lei anticrime, quando aprovado, teve alterações que prejudicavam o combate ao crime, especialmente ao mais sofisticado, o de corrupção. Tudo culminou com a interferência na Polícia Federal, que a meu ver fere a necessidade de uma polícia autônoma e enfraquece não só o combate ao crime, mas o próprio Estado de direito”.

Sobre sua relação com o presidente Bolsonaro, Moro disse que era uma relação “de ministro e presidente”. “O relacionamento pessoal não era muito profundo, era normal. Estive com os filhos
algumas vezes, o contato era cordial, nunca houve problemas nesse sentido. O que me levou a sair do Governo não foi uma questão pessoal, mas relativa às instituições”, disse.

28 de junho de 2020, 20:50

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