O templo e o mercado: as engrenagens da moral em Moacyr Scliar
Painel dos Livros
“Os vendilhões do templo” é um romance de Moacyr Scliar e o segundo de uma trilogia, junto com “A mulher que escreveu a Bíblia” e “Manual da paixão solitária”. O escritor brasileiro Moacyr Scliar (1937-2011) utiliza a famosa cena em que Jesus expulsa os comerciantes do Templo de Jerusalém como ponto de partida para construir uma narrativa que se desdobra em três épocas distintas: 33 d.C., 1635 d.C. e os nossos dias.
Na primeira parte, ambientada na Jerusalém, acompanhamos a história através da perspectiva de um dos vendilhões – um camponês arruinado que chega à cidade em busca de melhores oportunidades e encontra no comércio do Templo uma chance para realizar seus projetos mirabolantes. Em determinado momento, ele reflete sobre a corrupção no local. Embora possa soar algo anacrônico, é impossível deixarmos de estabelecer uma ligação com os dias de hoje:
“Quanto à corrupção… Talvez existisse. O vendilhão do Templo não sabia nada a respeito nem queria saber, não era da sua conta. Na verdade a corrupção não lhe repugnava tanto quanto a outros. Graças aos sacerdotes, corruptos ou não, o Templo tinha movimento, e o movimento do Templo fazia a riqueza circular. […] O vendilhão do Templo era contra o excesso de corrupção, contra o roubo puro e simples — o caso da falsificação de moedas. Mas um pouco de corrupção – qual o problema? Funcionava como estímulo à atividade mercantil, era o lubrificante que facilitava o movimento das engrenagens sociais.”
A segunda parte transporta-nos para 1635, no sul do Brasil, onde Nicolau, um jovem padre, chega a uma pequena missão jesuítica. Com a morte súbita do sacerdote que dirigia a missão, ele se vê responsável por uma comunidade indígena cujo idioma não domina. Um forasteiro se oferece como intérprete, mas logo revela um caráter suspeito, colocando Nicolau em uma situação angustiante.
Finalmente, a terceira parte se passa nos dias de hoje, na cidade que surgiu a partir da aldeia jesuítica. A esquerda celebra a conquista da prefeitura, e um assessor de imprensa reflete sobre essas mudanças enquanto relembra, com ex-colegas de colégio, uma peça teatral que encenavam na infância, com o tema da expulsão dos vendilhões do Templo. As três histórias se entrelaçam e se iluminam mutuamente, desdobrando de maneira inesperada o núcleo temático do episódio bíblico, com diversas possibilidades cômicas e dramáticas e explorando suas implicações morais.








