Análise: Bahia chega a 2026 com eleição aberta, governo aprovado e oposição competitiva
Da Redação
Pesquisa Genial/Quaest mostra Jerônimo Rodrigues com aprovação majoritária, mas sem transformar a reeleição em caminho automático. ACM Neto segue competitivo e aparece numericamente à frente nas simulações, dentro da margem de erro.
A eleição para o governo da Bahia em 2026 começa com uma fotografia politicamente ambígua: o governador Jerônimo Rodrigues mantém aprovação majoritária, o campo lulista continua estruturalmente forte no estado, mas ACM Neto segue como adversário altamente competitivo. A disputa, hoje, não aponta para ruptura consolidada nem para continuidade garantida. O eleitor baiano parece estar num ponto intermediário: não rejeita completamente o atual governo, mas cobra correções visíveis de rota.
Segundo a pesquisa Genial/Quaest realizada entre 23 e 27 de abril, com 1.200 entrevistas presenciais e margem de erro de três pontos percentuais, Jerônimo tem 56% de aprovação, contra 33% de desaprovação. Na avaliação qualitativa, 37% consideram o governo positivo, 33% regular e 25% negativo. O dado mostra que o governador chega competitivo, mas sem a folga política que marcou outros momentos recentes do PT na Bahia. 
O ponto mais revelador do levantamento está na pergunta sobre o desejo de continuidade ou mudança. Apenas 22% dizem que o próximo governador deve continuar o trabalho que vem sendo feito. Outros 40% defendem mudar apenas o que não está bom, enquanto 34% querem mudar totalmente. Ou seja: a maioria não está simplesmente pedindo troca de poder, mas também não está satisfeita com uma campanha baseada apenas na defesa do legado.
Esse eleitor da “mudança parcial” tende a ser o centro da eleição. É nele que Jerônimo e ACM Neto terão de disputar o sentido da palavra mudança. Para o governador, o desafio será apresentar correção sem parecer fraqueza. Para ACM Neto, será defender mudança sem parecer retorno ao passado ou alinhamento automático a uma oposição nacional rejeitada por parte expressiva do eleitorado baiano.
Na intenção de voto estimulada, ACM Neto aparece com 41% nos cenários testados. Jerônimo marca 37% em um cenário e 36% em outro. Em eventual segundo turno, ACM registra 41% contra 38% de Jerônimo, também em empate técnico. A vantagem numérica do ex-prefeito de Salvador é politicamente relevante, mas insuficiente para configurar favoritismo consolidado.
O dado de espontânea reforça a volatilidade: ACM Neto e Jerônimo aparecem empatados com 13%, enquanto a maior parte do eleitorado ainda não declara nome de forma espontânea. Isso indica que, apesar do alto conhecimento dos dois principais candidatos, a cristalização eleitoral ainda é baixa.
A pesquisa também mostra uma clivagem social nítida na avaliação do governo. Jerônimo é mais forte entre mulheres, eleitores mais velhos, pessoas de menor renda, menor escolaridade, católicos e lulistas. Sua fragilidade aparece com mais clareza entre jovens, homens, eleitores com ensino superior, renda acima de cinco salários mínimos, evangélicos e segmentos de direita ou independentes.
Entre eleitores de 16 a 34 anos, a aprovação cai para 46%, enquanto a desaprovação chega a 41%. Entre os que têm renda superior a cinco salários mínimos, a desaprovação supera a aprovação. No eleitorado com ensino superior, há praticamente empate entre aprovação e desaprovação. Esses recortes apontam para um problema específico: o governo mantém força popular, mas enfrenta resistência crescente no eleitor urbano mais escolarizado, mais jovem e de maior renda.
ACM Neto, por sua vez, conserva um ativo poderoso: recall, conhecimento e competitividade. Ele já foi testado em 2022, perdeu uma eleição apertada no segundo turno e segue sendo o nome mais forte da oposição. Seu desafio, porém, permanece o mesmo: vencer em um estado onde Lula e o PT ainda têm forte enraizamento simbólico, social e territorial.
A Bahia tem uma particularidade que torna a eleição complexa. O campo governista domina a máquina estadual, tem forte presença no interior e saiu das eleições municipais de 2024 com ampla capilaridade. Ao mesmo tempo, a oposição demonstrou força nos grandes centros urbanos, especialmente em Salvador e em municípios estratégicos. O mapa político, portanto, não é linear: o governo tem interior; a oposição tem densidade urbana.
A comparação histórica ajuda a entender a mudança de ambiente. Em 2014, Rui Costa venceu no primeiro turno. Em 2018, foi reeleito com votação esmagadora. Em 2022, porém, Jerônimo venceu ACM Neto em uma disputa muito mais apertada, decidida no segundo turno. A eleição de 2026 parece continuar esse ciclo de maior competição. O PT não perdeu a Bahia, mas perdeu a condição de invencibilidade automática.
Outro dado sensível é o peso da segurança pública. A violência aparece como o principal problema do estado, seguida pela saúde. Esse tema tem potencial para corroer a aprovação do governo porque mexe com percepção cotidiana, medo e sensação de perda de controle. Para a oposição, é o terreno mais óbvio de ataque. Para Jerônimo, é o campo onde a resposta precisará ser mais concreta e menos retórica.
No Senado, o cenário é mais confortável para o campo governista. Rui Costa e Jaques Wagner aparecem à frente, com vantagem sobre nomes da oposição. Isso reforça a leitura de que o PT segue forte na Bahia, sobretudo quando a disputa é associada ao legado nacional, ao lulismo e às lideranças históricas do partido.
A eleição para governador, no entanto, tem dinâmica própria. Jerônimo ainda precisa consolidar uma identidade política mais pessoal. Ele não pode depender apenas de Lula, Rui Costa e Wagner. ACM Neto, por outro lado, precisa ampliar seu discurso para além da crítica ao governo e evitar que a campanha seja capturada por uma polarização nacional desfavorável na Bahia.
O cenário atual pode ser resumido assim: Jerônimo tem a máquina, a aprovação e o campo político mais enraizado; ACM Neto tem recall, competitividade e menor rejeição relativa. A eleição está aberta porque nenhum dos dois conseguiu ainda dominar o centro emocional da disputa.
Hoje, a Bahia não parece pedir uma revolução. Mas também não parece disposta a assinar um cheque em branco para a continuidade. A mensagem do eleitor é mais sofisticada: quer permanência onde há confiança, mudança onde há desgaste e resposta concreta onde há medo. Quem conseguir traduzir esse sentimento com mais precisão terá vantagem real em 2026.








