A arte e a política em “Estação Atocha”
Guilherme Reis
O conhecido desinteresse dos americanos pela cultura estrangeira está no centro do primeiro romance de Ben Lerner, “Estação Atocha”, lançado em 2011 nos Estados Unidos e em 2015 no Brasil, pela extinta editora Rádio Londres. Na narrativa autobiográfica, o jovem poeta Adam Gordon ganha uma bolsa de estudos e vai passar um ano em Madri, onde precisa escrever um longo poema narrativo sobre o papel a literatura na Guerra Civil Espanhola. Adam, porém, se depara com uma sucessão de dificuldades, como os limites da linguagem, seu parco conhecimento sobre a Espanha e os conflitos de sua própria personalidade.
Todos os eventos são desencadeados pelas tentativas de o narrador-protagonista executar seu projeto de pesquisa (ou de procrastiná-lo), o que a princípio pode desagradar ao leitor pouco habituado ao mundo acadêmico. E agradar é o que Adam menos quer: sem qualquer cerimônia, ele expõe o lado mais pueril de sua intimidade com passagens cuja necessidade é questionável. “Depois, o projeto exigia que eu voltasse para dentro, descendo pela claraboia, cagasse, tomasse banho, engolisse os comprimidos brancos e me arrumasse”, escreve logo na primeira página.
Mas o espanto do leitor é passageiro. À medida que o texto avança, torna-se cada vez mais nítida a personalidade instável e insensível de Adam, que se define como “mentiroso compulsivo, violento e bipolar” e, por isso, “um autêntico americano”. Ao conhecer a poeta e tradutora Teresa, irmã de um galerista, Adam, com seu espanhol capenga, inventa que sua mãe havia morrido. E, mesmo sem saber por que mentiu, repete a história para Isabel, uma funcionária do curso de idiomas com quem ele começa a se relacionar.
A partir da metade, o romance cresce e assume um viés político de maneira mais clara. De manhã, Adam acorda e, da janela do hotel, avista caminhões de bombeiros e viaturas passando em alta velocidade. Ele então caminha até a Estação Atocha, chegando “àquilo que se costuma descrever como cenas de caos e destruição”. Há médicos, paramédicos, policiais e feridos sendo evacuados. É o atentado terrorista de 11 de março de 2004, que matou quase 200 pessoas e feriu mais de 2 mil às vésperas das eleições gerais.
Multidões ocupam as ruas em protesto, incluindo Teresa, jovem culta da classe média alta, e seus amigos burgueses. Sem julgamento, mas com a clara demonstração de que sabe o que está acontecendo, Adam revela a falta de real interesse daquelas pessoas pelo real destino do país, muito menos pelos 200 mortos. Em determinado momento, Teresa diz que a maioria das vítimas eram imigrantes e trabalhadores, e que ela não conhecia muitas pessoas que trabalham.
Nada sai incólume em Estação Atocha. Nem os ricos europeus nem os americanos, representados pelo próprio Adam e suas tendências autodepreciativas. E assim, o romance termina universal








