segunda-feira, 18 de maio de 2026

Antonio Fagundes vê Brasil atual em “Velho Chico”

Foto: Divulgação

Dentro de uma semana, Rodrigo Santoro vai entrar no corpo de Antonio Fagundes. Ou melhor, o coronel Afrânio, que hoje vive em Santoro, passará a habitar a pele do outro em Velho Chico. É novela, vá lá. Mas, revendo aquele libertário personagem que conhecemos no primeiro capítulo, imerso na revolução cultural de uma Tropicália que fazia Salvador ferver, e que foi se transformando na mais fiel tradução do coronel, capaz de mandar matar e calar quem o confronta, a mudança física parece coisa pouca.

“Eu digo para o Rodrigo: ‘olha o que a vida fez com você’, que triste”, brinca Fagundes, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo em uma respeitável sala de leituras de texto nos Estúdios Globo, no Rio.

No caso de Afrânio, apesar da esperança em encontrar uma figura mais humana no fim da novela, a virada de Santoro para Fagundes representa um hiato de 28 anos no enredo e ele chega a esse novo tempo mais malvado que nunca. O texto de Edmara Barbosa e Bruno Luperi, filha e neto do autor da história, respectivamente, ganha tinhas políticas bem mais fortes.

Coronelismo – Afrânio se torna uma aberração do símbolo do coronelismo, com ações nada camaradas. “Ele constrói uma estrada, é muito aplaudido na inauguração, é fantástico o que ele fez naquela caatinga. Agora, a estrada só vai até o entreposto dele”, conta o ator, que vê semelhanças profundas entre a trajetória do personagem e os rumos do País.

“A novela fala desse Brasil que a gente está vivendo. A gente percebeu um movimento político a caminho de uma coisa boa e, de repente, descobriu que não, que não estava caminhando, tinha uma coisa corroendo por trás. Esse Afrânio, esse personagem que o Benedito criou, é o retrato do que a gente está vendo aí. É um cara que tem informação, é advogado, lidava com a lei, e é tirado daquele possível ambiente dele, civilizado – não é à toa que começa na Tropicália, um momento moderno, revolucionário, de virada para a modernidade do Brasil – e o jogam no meio da caatinga, de um sistema montado há séculos, que ou ele morre ou ele preserva aquele sistema.”

04 de abril de 2016, 13:30

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