segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Antônio, o burro faminto e a Festa de Corpus Christi

Foto: Reprodução / Aleteia

Davi Lemos*

Santo Antônio de Pádua ou de Lisboa (1195 – 1231), celebrado neste 13 de junho por muitos católicos e também por adeptos de outros credos como Umbanda, Candomblé e Espiritismo, é muito lembrado por sua fama de casamenteiro, de intercessor por causas urgentes ou pela caridade com os pobres que o marcou em vida e que, inclusive, inspirou Santa Dulce dos Pobres, mas é pouco lembrado por sua doutrina que o coloca como doutor da Igreja ou por seu amor a Jesus Sacramentado.

No dia da celebração de Corpus Christi deste ano, em 3 de junho (a data é móvel dentro do calendário litúrgico católico), observei que ocorria no mesmo dia em que igrejas e casas espalhadas por Salvador e pelo país inteiro já estavam no terceiro dia da trezena em louvor ao taumaturgo português. Lembrei-me então de uma história inusitada na vida do santo, quando ele passava por Toulouse, na França, e combatia, por meio de argumentos, contra chamados hereges que não acreditavam que Cristo estivesse presente verdadeiramente em corpo, ou seja, transubstanciado (termo que apenas se usou três séculos depois no Concílio de Trento) na hóstia consagrada.

Após ter ouvido todos os argumentos que poderiam vir de inteligência privilegiada do lusitano, mesmo convencido pelas palavras, o herege propôs: “Deixemo-nos de palavras e vamos a obras. Se tu fores capaz de mostrar com milagres, na presença de toda a gente, que no Sacramento está de fato o Corpo de Jesus Cristo, eu prometo deixar a heresia e submeter-me à Fé católica”.

Antônio aceitou o desafio e foram postas pelo herege, cujo nome é desconhecido, as regras: “Pois então vou fechar em casa um animal. Vou atormentá-lo com a fome durante três dias, e ao fim vou trazê-lo perante todos os que quiserem assistir, dando-lhe algo de comer. Neste intervalo, vens tu com o Sacramento que dizes ser o Corpo de Jesus Cristo. Se o animal esfomeado parar de comer e correr para o Deus que, segundo afirmas, toda a criatura tem obrigação de adorar, podes ficar certo que imediatamente abraçarei a Fé da Igreja”.

Passados os três dias, o homem chegou com o animal, um burro que já estava há três dias sem alimento, e, diante de todos, ao invés de ir comer o feno, dobrou as patas dianteiras e, prostrado, adorou o Santíssimo Sacramento apresentado pelo frade menor franciscano. Belíssimas também foras as palavras dirigidas pelo santo ao animal: “Em virtude e em nome do teu Criador que eu, embora indigno, tenho aqui presente em minhas mãos, ordeno e mando que venhas já sem demora até Ele e humildemente lhe prestes reverência”. Ao homem que já havia encantado peixes e carregado o Menino Jesus nos braços, não faltariam palavras para o burro convencer. Toda a praça em Toulouse, diante do fato, acreditou nas palavras de Santo Antônio.

Outra associação ao fato de a festa litúrgica de Corpus Christi ocorrer neste terceiro dia da trezena a Antônio é que, naquela época, não havia data estabelecida para a festa. Mas era contemporânea, embora não conterrânea, a santa que propiciou o estabelecimento da solenidade: Santa Juliana da Bélgica, monja agostiniana que viveu entre 1193 e 1258. Em 1209, a freira começou a ter visões que solicitavam à Igreja a instituição da data, mas somente em 1230 é que a santa revela o segredo ao arcebispo de Liège que se tornaria, anos depois, o papa Urbano IV.

Naquele mesmo ano, a festa do Corpo de Cristo passou a ser celebrada na cidade belga. Mas somente em 1264, pouco antes de morrer, foi que Urbano IV estendeu a festa para toda a Igreja dita universal. No entendimento católico, ensina-se que Deus costuma enviar os santos mais necessários para cada período: naquela época, muitos católicos não mais acreditavam Naquela presença real.

Daí coube a Deus enviar Antônio, Juliana e o burro mais esperto que já houve em Toulouse. Viva Santo Antônio!

*Davi Lemos é jornalista

13 de junho de 2021, 18:28

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