sexta-feira, 22 de maio de 2026

Baleia Rossi: “Em Salvador, temos que somar forças com Jerônimo, e não dividir”

Foto: Divulgação

Da Redação

Presidente nacional do MDB, o deputado federal Baleia Rossi (SP) esteve em Salvador na última quinta-feira (25) para participar de um evento organizado pela Fundação Ulysses Guimarães e fez uma visita de cortesia ao governador Jerônimo Rodrigues. Embora não tenham tratado de política de forma mais profunda, o nome do vice-governador Geraldo Júnior foi colocado na mesa como um ativo do partido nacionalmente, uma vez que Salvador é um dos maiores colégios eleitorais do país.

Nesta rápida entrevista concedida ao Toda Bahia após o encontro com Jerônimo, Baleia Rossi fala sobre a retomada da aliança do MDB com o PT na Bahia, mas defende que os diretórios municipais emedebistas tenham autonomia para firmar alianças mesmo que com legendas da oposição – embora, ressalte, isso seja de responsabilidade do comando estadual da sigla.

No papo, Baleia Rossi também fala sobre a relação com o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União) e com o deputado federal Elmar Nascimento (União), bem como a respeito da possibilidade da formação de uma federação entre o MDB e o PSDB, da qual é defensor. “Se a gente avançar, tenho certeza que iremos fortalecer os dois partidos na Bahia”.

O presidente nacional do MDB aborda ainda a relação do partido com o governo Lula (PT) e o posicionamento da sigla diante de votações como o novo marco fiscal, a reforma tributária, o marco legal do saneamento e a autonomia do Banco Central. Confira abaixo a íntegra.

Confira a íntegra da entrevista.

Toda Bahia – O MDB votou em peso a favor do novo marco fiscal. Apenas dois deputados federais do partido se posicionaram de forma contrária. Isso significa que a legenda está de corpo e alma na base do presidente Lula?
Baleia Rossi – Isso quer dizer que o MDB está colaborativo com o governo. Não é à toa que a gente trabalha em favor do país. Eu nunca trabalhei apostando no quanto pior, melhor. Pelo contrário, estamos no mesmo barco e precisamos cuidar do país. Se a economia voltar a crescer, é para todos, principalmente os mais humildes. E a meta fiscal sinaliza para a responsabilidade fiscal e social. Por isso, dos 43 deputados federais do MDB, só dois votaram contra, como você disse, e isso demonstra que o partido está nesse projeto de reconstrução do país. É claro que se participamos do governo com a ministra Simone Tebet no Planejamento, com Jader Filho nas Cidades e com Renan Filho nos Transportes, é porque temos absoluta convicção de que este governo está fazendo de tudo para melhorar a vida de todos.

TB – Mas o MDB atuou para derrotar o governo na questão do novo marco legal do saneamento, não permitindo as alterações feitas na nova legislação. O posicionamento em relação ao Planalto dependerá da pauta de ocasião?
BR – De maneira alguma. A narrativa sobre aquela votação não foi correta. O MDB definiu que a Executiva nacional será colaborativa e vai trabalhar em parceria com o governo nos bons projetos para o país. Na questão do marco do saneamento, esse foi unm projeto construído pelo Parlamento, há cerca de dois anos. Foi um avanço para que a iniciativa privada pudesse investir em um setor extremamente necessário. Hoje, 100 milhões de brasileiros estão vivendo sem saneamento básico, e isso não é humano. Entendemos lá atrás, na votação do projeto, que o poder público não tem feito nos últimos 30 anos investimentos no setor que agora a iniciativa privada pode fazer. O intuito é beneficiar mais brasileiros com saneamento básico, fazer essa mudança de comportamento. Não temos nenhum tipo de conversa com o governo que não seja a de trabalhar em conjunto, mas temos nossas convicções e vamos mantê-las também.

TB – O líder do MDB na Câmara, deputado Isnaldo Bulhões Júnior (AL), é relator da Medida Provisória (MP) do governo que alterou a composição ministerial no início do governo. Ele fez mudanças na proposta criticadas principalmente na área do meio ambiente. Nessa questão, que precisa ser encerra esta semana, o partido do senhor está ajudando ou atrapalhando o presidente?
BR – Lideranças do governo deram declarações de que o Palácio do Planalto concorda em 95% do relatório. Portanto, o deputado Isnaldo, que é muito experiente, lá de Alagoas, fez um trabalho com uma parceria muito grande com as diversas áreas do governo. E quando o governo concorda com 95% do relatório, demonstra que há convergências. O MDB vai acompanhar o relatório.

“Entendemos que o Banco Central precisa agora ter sensibilidade social e diminuir os juros, que estão hoje em patamares prejudiciais para a nossa economia”

TB – O MDB apoia as críticas de Lula ao Banco Central e sua autonomia na questão dos juros?
BR – Acho que esse assunto é página virada. Num primeiro momento, o presidente colocava até a possibilidade de revogar essa autonomia, mas nós, do MDB, fomos a favor da autonomia. Hoje o presidente reconhece que deve haver automia porque isso é bom para o país, para nos dar estabilidade. Agora nós, enquanto partido, votamos a favor do arcabouço fiscal e agora estamos trabalhando na reforma tributária. Ou seja, entendemos que o Banco Central precisa agora ter sensibilidade social e diminuir os juros, que estão hoje em patamares prejudiciais para a nossa economia, os investimentos, a população, o trabalhador e o empreendedor. Estamos esperando que agora baixem.

TB – O senhor é autor de uma das propostas de reforma tributária que tramitam no Congresso. O tema é considerado prioritário pelo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL). Acha que realmente passa ainda neste primeiro semestre?
BR – O presidente Arthur Lira disse recentemente aos governadores do Nordeste que a Câmara não entra em recesso em julho sem aprovar nos dois turnos a PEC (Proposta de Emenda Constitucional) da reforma tributária. Isso é importante para organizar e simplificar nossos tributos. Vai fazer a economia destravar. Se queremos gerar emprego e renda no país, precisamos da reforma tributária. E, pela primeira vez em 30 anos, temos uma convergência de forças políticas poderosas para que isso aconteça. Primeiro, temos o apoio de Arthur Lira de maneira enfática. Segundo, temos também o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), a favor. E temos a presença do governo, não só por meio do presidente Lula, mas também dos ministros Rui Costa (Casa Civil) e Fernando Haddad (Fazenda), que defendem a aprovação da reforma. A ideia é a gente unificar todas as propostas que tramitam, incluindo a minha, e fazer um bom texto. Essa é uma pauta de Estado. Não é de governo ou oposição. Precisamos unificar e diminuir impostos. Vamos colocar 100% dos tributos onde o bem ou serviço é utilizado, numa sistemática parecida com os bons IVAs (Imposto sobre Valor Agregado) no mundo. O desafio é grande, mas creio que podemos votar em dois turnos, ainda neste semestre, na Câmara. No segundo semestre, o mesmo deve ocorrer no Senado. Isso vai dinamizar a economia brasileira.

TB – As CPIs não podem atrapalhar?
BR – Acho que não atrapalha. As CPIs, que são muitas, de fato, têm seus objetivos. Mas o Parlamento tem pressa em pautas estruturantes como a reforma tributária, e não podemos permitir que assuntos secundários prejudiquem a pauta que de fato interessa ao país.

TB – A CPMI do 8 de janeiro não tem um potencial maior de atrapalhar o funcionamento do Congresso, em função da polarização política entre os bolsonaristas e o atual governo?
BR – Olhe, a gente sabe como começa uma CPI, mas não sabe quando termina. Agora nos tivemos de fato atos criminosos no dia 8. Atos que foram uma afronta à democracia. O que precisa ser apurado: quem são, quem financiou e quem está por trás dessa tentativad e derrubar um governo democraticamente eleito.

TB – Na sua opinião, foi uma tentativa de golpe?
BR – É uma situação que acho que todo mundo que pode ter tido alguma influência precisa ser investigado. Agora não acredito que haja qualquer tipo de tentativa de utilização política dessa CPI. Quem cometeu crime, se quis dar golpe ou não, não vai deixar de ser criminoso por causa da CPI.

“O Arthur (Lira) tem conduzido bem os trabalhos. Acho que ele tem sido um parceiro do governo
e não acredito que atue para atrapalhar”

TB – O ex-ministro Geddel Vieira Lima, uma das principais lideranças do MDB no Estado, costuma dizer que o presidente Lula deveria mudar a forma de se relacionar com os partidos e colocar a opinião pública para pressionar o Congresso Nacional no avanço das pautas de interesse do país, acabando com o tradicional toma-lá-dá-cá. O senhor acha isso possível?
BR – Olha, na verdade o governo Lula está num processo de organização de sua base. Agora, tem partidos importantes que estão compromissados com a pauta de país. Temos pautas caras que foram construídas pelo MDB e para as quais não iremos retroagir, como a questão do marco do saneamento, que falamos antes, das reformas trabalhistas e do ensino médio. Não mudamos de postura porque temos compromisso com o país. Agora as pautas que a gente olha para o futuro, para que o país se desenvolva, cresça com sensibilidade e projetos sociais, como é o caso do Bolsa Família, do Minha Casa, Minha Vida, nós temos não só o MDB, mas o União Brasil, o PSD, os partidos da esquerda, se colocando a favor de forma natural. Um exemplo disso é o arcabouço fiscal, aprovada com muita facilidade, apesar da preocupação do mercado financeiro de que poderia ser emperrada. Foi uma grande vitória, construída de forma colaborativa. As pessoas muitas vezes acabam tendo muitas informações e nem todas acontecem na realidade. O governo está em um processo de fortalecimento, de crescimento de sua base, mas principalmente em um processo de convencimento sobre as pautas. Todas as pautas que são importantes terão o apoio grande da Câmara e do Senado, não tenho dúvidas.

TB – No caso do marco fiscal, se atribui muito a aprovação à força de Arthur Lira. O presidente da Câmara tem poderes demais hoje?
BR – A questão é que hoje o Parlamento está muito fortalecido. Nós conseguimos, nos últimos anos, votar muitas reformas e muitos projetos importantes graças a esse protagonismo do Parlamento. O Arthur tem conduzido bem os trabalhos. Acho que ele tem sido um parceiro do governo e não acredito que atue para atrapalhar, para prejudicar, fazendo com que a pauta não ande. Nosso trabalho na Câmara é no sentido de promover avanços.

TB – O senhor perdeu a última disputa pelo comando da Câmara para Arthur Lira, em uma eleição na qual houve acusações de que o ex-prefeito de Salvador ACM Neto, secretário-geral do União Brasil, manobrou contra a sua candidatura para favorecer a reeleição do atual presidente. Como é sua relação hoje com Neto?
BR – Tenho uma conversa muito tranquila com o Neto. É uma liderança importante na Bahia. A gente tem que olhar para frente. A gente sabe que essas questões têm muitas nuances, e nem tudo que se falaz condiz com a realidade. Tem muito folclore nessa história. Tenho uma relação absolutamente tranquila com Neto e com o União Brasil. O fato é que hoje estamos num bom momento na Bahia. Temos o vice-governador Geraldo Júnior, o deputado federal Ricardo Maia, os deputados estaduais Rogério Andrade e Matheus de Geraldo, e somos parceiros do governador.

TB – O líder do União Brasil na Câmara, deputado Elmar Nascimento, é cotado para ser o sucessor de Arthur Lira no comando da Casa. O MDB pode apoiar o parlamentar baiano? O senhor será candidato novamente?
BR – Eu acho que é muito cedo para falar de sucessão. Temos ainda uma agenda e vários fatores que irão influenciar na questão da sucessão do Arthur. Quanto mais cedo começa a sucessão, mas cedo acaba a gestão do Arthur, então não é interessante nem para ele antecipar isso. No MDB, o momento é de priorizar o crescimento do partido no país, inclusive na Bahia. Elegemos 42 deputados federais, dez senadores, três governadores e sete vice-governadores. Crescemos em 2022 e queremos crescer mais. O MDB é um partido que tem conexão com o eleitor e a população em geral. Sobre a Câmara, não serei candidato a presidente.

TB – E em relação ao nome de Elmar Nascimento?
BR – Acho que precisamos ter diálogo com todos. Essa é uma discussão muito prematura porque realmente estamos ainda no quinto mês do primeiro ano dessa gestão do Arthur Lira. É muito cedo.

TB – O senhor apoiou esse movimento do MDB, em 2022, de romper com ACM Neto e retomar o “casamento” com o PT?
BR – Nossos diretórios têm autonomia, como é o caso da Bahia. Mas vejo que foi uma aliança muito bem sucedida. O MDB cresceu aqui no Estado, e deve continuar esse movimento de fortalecimento em 2022, nessa parceria com Jerônimo. Vamos nos preparar para as eleições municipais. Estamos indo muito bem na Bahia.

TB – O MDB nacional também apoia a candidatura do vice-governador Geraldo Júnior a prefeito de Salvador?
BR – Eu acho que Geraldinho é um grande player que temos no MDB. Se houver o convencimento de que ele deve ser candidato, terá todo apoio do MDB nacional. Claro que isso precisa ser discutido e construído no campo político no qual estamos inseridos hoje na Bahia, porque eu acho que o ideal é que não haja divisões para que a chance de vitória seja maior. Em Salvador, temos que somar forças com Jerônimo, e não dividir. Mas se depender só da vontade de Baleia Rossi, Geraldinho será candidato, sim.

“Eu acho que Geraldinho é um grande player que temos no MDB. Se houver o convencimento de que
ele deve ser candidato, terá todo apoio do MDB nacional”

TB – Acha que o PT pode apoiar uma candidatura de Geraldo Júnior?
BR – Acho que essa parceria que aconteceu em 2022 vai se replicar na grande maioria dos municípios baianos. Claro que pode haver uma exceção aqui e outra ali, pensamentos diferentes, mas acredito que a tendência será essa. Creio que essa conversa sobre Salvador ainda vai acontecer, vai se estreitar, os nomes serão colocados na mesa. O MDB da Bahia confia no governador Jerônimo Rodrigues e o governador tem demonstrado que confia no nosso partido.

TB – O partido então vai permitir alianças, nas eleições de 2024, com partidos que não estão na base do governador?
BR – O MDB é o partido mais democrático do Brasil. Respeitamos os diretórios estaduais e municipais. Faremos o que for melhor para a população. Esse é o espírito do nosso partido. Mas essas são questões que serão conduzidas pelo diretório estadual, pelo presidente Alex Futuca, pelo (presidente de honra) Lúcio Vieira Lima.

TB – MDB e PSDB tem discutido a possibilidade da formação de uma federação já para as eleições de 2024. Isso vai sair do papel ou terá o mesmo destino de outras conversas semelhantes entre partidos ocorridas recentemente?
BR – Ainda estamos em processo de conversa. Já estive conversando com o presidente nacional do PSDB, o governador Eduardo Leite (Rio Grande do Sul). Também conversei com o ex-senador Tasso Jereissati (CE), com o líder do PSDB na Câmara Federal, Adolfo Viana, e outras lideranças tucanas importantes. O objetivo é que a gente possa avançar. Claro que isso não acontece da noite para o dia. Mas também não é um assunto que pode ficar mais de um mês como expectativa. Acho que temos algumas possibilidades, as conversas estão boas e atuamos num campo político muito parecido, de centro. Além disso, estivemos juntos na eleição presidencial de 2022, na candidatura de Simone Tebet. Acredito que essa união pode fortalecer o centro, num momento em que temos uma direita e uma esquerda muito fortes. Mas não vou dar garantias de que vai sair a federação porque são dois partidos com muitas lideranças.

TB – Na Bahia, por exemplo, os dois partidos estão, no momento, em campos opostos.
BR – Você sabe que essa possibilidade de federação vai acontecer para as eleições municipais. E se você pegar cidade por cidade, as dificuldades são muito menores do que nas eleições estaduais ou nacionais. Isso é um facilitador. Se a gente avançar, tenho certeza que iremos fortalecer os dois partidos na Bahia.

 

30 de maio de 2023, 10:43

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