quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Cosme, Damião e o milagre do transplante no sacristão

Foto: Reprodução

Davi Lemos*

A vida dos santos Cosme e Damião é repleta de relatos sobre curas milagrosas realizadas pelos irmãos gêmeos nascidos na Ásia Menor por volta do ano 260. Médicos, com estudos realizados na Síria, a tradição cristã informa que cuidavam e curavam pessoas sem cobrar, mas realizando o trabalho como forma de evangelizar – foi este ponto que causou a ira do imperador romano Diocleciano, que os mandou matar na grande perseguição aos cristãos ocorrida em 303.

É atribuída aos santos gêmeos a realização do primeiro transplante da história – pelo menos o primeiro feito com êxito. Uma das versões do fato dá conta de que um sacristão da Igreja de São Cosme e Damião, em Roma, padecia de enfermidade que lhe corroía a perna. O sacristão teve então uma visão dos santos padroeiros do templo romano e, enquanto dormia, sonhou que os irmãos gêmeos haviam cortado seu membro ruim e transplantado a perna de um africano morto.

Ao acordar, o sacristão descobriu então que tinha uma perna negra saudável – em um cemitério próximo à igreja, descobriram que faltava a perna no cadáver do africano que havia sido recentemente sepultado. Esta visão do sacristão foi descrita em livro de Jacobus de Voragine, em 1275, e inspirou a pintura em óleo atribuída ao Mestre de Los Balbases, realizada por volta de 1495, cujo detalhe ilustra este artigo escrito para Toda Bahia. Na pintura, os santos são representados com trajes completos de médicos acadêmicos e tendo a assistência de anjos para a realização da milagrosa cirurgia.

Há outras versões desta mesma cirurgia que considera o fato como ocorrido ainda durante a vida terrena dos mártires. Sobre o sacristão agraciado, diz também o relato romano que ele compôs uma oração cuja conclusão era: “Oremos, então, a estes mártires sagrados para que sejam nosso socorro e auxílio em todas as nossas dores, feridas e úlceras, e que por seus méritos, após esta vida, possamos chegar à bem-aventurança eterna no paraíso. Amém”.

Os santos Cosme e Damião são celebrados pela Igreja Católica em 26 de setembro (rito romano ordinário) ou 27 de setembro (rito romano antigo) e também pela Igreja Ortodoxa Grega (1 de julho) e pelo conjunto das demais Igrejas Ortodoxas (1 de Novembro). No Brasil, as religiões de matriz africana celebram os santos no dia 27, seguindo o calendário romano que vigeu até a reforma litúrgica da década de 1970.

Sincretismo

No Candomblé e na Umbanda, Cosme e Damião são associados aos orixás Ibejis, filhos gêmeos de Xangô e Iansã. A tradição prescreve fazer caruru em homenagem aos Sete Meninos ou sete irmãos (Cosme, Damião, Dou, Alabá, Crispim, Crispiniano e Talabi) e alimentar as crianças – e também os adultos que vão acompanhar as crianças. Como se diz na Bahia, “é de lei”.

Mas o fato de o milagre do transplante ser descrito, tanto na versão do milagre realizado em vida pelos santos ou conforme a visão do sacristão, com o mesmo resultado – o paciente vive com duas pernas saudáveis, uma branca e outra negra – força-nos uma reflexão. A mim, pelo menos, essa história surge como metáfora para a sociedade que desejamos: brancos e pretos sendo, igual, saudável e harmonicamente, sustentação para o mesmo corpo social.

Uma metáfora que se realizou na vida dos santos celebrados por cristãos católicos e ortodoxos e também por quem segue o Candomblé e a Umbanda: Cosme e Damião dispunham dos meios naturais e sobrenaturais que possuíam para curar pacientes de distintos credos, distintas etnias, em nome de Jesus Cristo, o Deus encarnado a quem disseram servir e por quem derramaram o sangue como mártires da fé.

“Nós curamos as doenças em nome de Jesus Cristo, e pelo seu poder. Ele é o Filho de Deus que veio a este mundo para salvar e para curar”, confessaram os santos médicos antes do martírio há 1.700 anos.

*Davi Lemos é jornalista

26 de setembro de 2021, 16:29

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