Débeis brumas, de Rafael Dias, ganha lançamento nacional em dose dupla no Recife
Da redação
Nas anotações para um ensaio de 1931 sobre o poeta e filósofo Paul Valéry, o pensador alemão Walter Benjamin refere-se ao escritor francês como uma espécie de elo entre os mundos da lírica e da razão, ou entre a “poesia pura” e a “inteligência pura”, em suas próprias palavras. “Existe uma conexão entre a sobriedade concisa e metódica do pensador e escritor Valéry e a crueldade com que o poeta faz do nada um atributo da perfeição”, diz o crítico de origem judaica, complementando que os poemas de Valéry não encontram relação com a vida ou a realidade em si mesmas, mas, sim, com a voz, esta uma “quintessência” da poésie pure.
Próximo de preocupação benjaminiana em torno de uma totalidade da poesia-pensamento e da linguagem como fala, o livro de poesia Débeis brumas, obra de estreia do jornalista e professor de Filosofia Rafael Dias na literatura, acerca-se de um ponto nevrálgico: a hipótese de uma tal condição brumosa da modernidade que nos alcançaria até os dias atuais.
Apartada da histórica separação entre as linguagens mítica e racional, mas, pelo contrário, imiscuindo-as, e, ainda, atenta às vozes emudecidas de uma lírica perdida, a obra poética atém-se à condição de possibilidade diante de percepções sensoriais e mnemônicas diante de fenômenos do tênue, do transfigurado e do diáfano. Estende-se, assim, o olhar de Rafael a um mundo circundante a partir de suas experiências ou vivências em diferentes lugares (Região dos Lagos no Rio de Janeiro, Recife, São Paulo, Florianópolis etc.) por onde passou, mas, sobretudo, com base em um processo sentipensante de reconsideração a objetos, seres e paisagens, cujas vozes, muitas vezes, são aplacadas ou pouco notadas.
Em grande parte, inspirado na tese de doutorado defendida em Filosofia na UFSC, em 2023, e intitulada Névoa e a dialética alegórica da imagem: uma leitura constelar em torno da fantasmagoria, da poeira e do limiar na teoria do conhecimento de Walter Benjamin, o livro Débeis brumas tem como fio condutor a ideia da névoa e suas variações (bruma, nevoeiro, poeira, nebulosidades, vapores, nublamentos, neblinas, cerração, sejam elas fenômenos atmosféricos ou parábolas em busca de uma filosofia da linguagem, meio ao cenário de crises ambientais e problemas inculturais na contemporaneidade. O ponto de partida do escrito poético, assim, enovela-se em torno da névoa de Walter Benjamin, mas também se espraia por tessituras imagéticas (ar, cores, formas fluidas e demais instâncias do efêmero que escapam à classificação universal), além de pathos e memórias próprias ao poeta e ao cotidiano na América Latina contemporânea.
Assim frisa Raul Antelo, professor titular de literatura brasileira na UFSC e pesquisador-sênior do CNPq, no prefácio do livro: “É difícil, talvez impossível, arrematava Jorge de Lima, colocar em consonância ação e meditação, porque sempre uma anula a outra. O homem que se satisfaz apenas com a ação não percebe senão o sentido de sua energia exclusivamente ginástica; e o que se entorpece na consideração de si mesmo, olhando o seu místico umbigo, é em verdade um ser que se mumifica. O ideal (o impossível) seria atingir a causa mesma de cada expressão, a partir da mais simples mímica interior, e dar a ela um valor de eternidade. Nesse incipiente caminho, Rafael Dias viu, num ponto esquivo, débeis brumas”.
Selecionada pela editora paulista Urutau em agosto passado, em edital aberto específico para os estados de Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, a obra “Débeis brumas” marca a estreia de Rafael na escrita literária. Hoje radicado no Mato Grosso do Sul, onde atua como docente concursado, o jornalista e escritor natural de Niterói (RJ) morou 24 anos no Recife, experiência que agora retribui ao voltar à terra e escolher a capital pernambucana como etapa inaugural de um ciclo de lançamentos.
“A escolha do Recife como princípio desse movimento poético decorre não somente da minha relação afetiva com a cidade, mas também da força e da resistência de sua tradição literária, artística e cultural meio a uma esterilidade cultural. É o lugar para onde sempre volto com o intuito de visitar amigos e familiares por parte de mãe pernambucana. É, ainda, minha referência, polo dos meus primeiros estudos avançados, incluindo um mestrado, e dos meus primeiros trabalhos enquanto jornalista e professor”, justifica Rafael, que decidiu pela realização de dois eventos, um literário e outro artístico, como uma forma de agradecimento à população pernambucana.
Encontros com o público – A lírica reflexiva proposta por Rafael Dias será desdobrada, durante o lançamento de Débeis brumas, em um primeiro momento, com uma sessão de autógrafos e conversa com leitores dia 10 de janeiro (sexta-feira), às 19h30, na Livraria Imperatriz do Shopping Recife, em Boa Viagem (Zona Sul). No dia seguinte, às 14h, no Instituto Ploeg, no bairro da Boa Vista, será realizada a segunda etapa, com uma roda de conversa de teor artístico, abordando temas como paisagens e arte. Participam desse encontro, mediado pelo jornalista Márcio Bastos, a artista visual Maria do Carmo Nino, que também é professora da UFPE; Lourival Holanda, escritor, professor titular aposentado da UFPE e presidente da Academia Pernambucana de Letras (APL); e Fernando de Mendonça, professor de Teoria Literária da UFS, que assina a orelha do livro e virá diretamente de Aracaju para fazer uma residência artística em literatura e prestigiar o lançamento.
Premiações – Antes mesmo de chegar às prateleiras, a obra Débeis Brumas já despontava no cenário das letras nacional. Em junho de 2024, o poema-título, “Débeis brumas”, foi vencedor do 6º Prêmio Literário Afeigraf, promovido pela Associação dos Agentes de Fornecedores de Equipamentos e Insumos para a Industria Gráfica, com sede em São Paulo. Em virtude dessa honraria, o poema foi lançado em uma coletânea nacional durante a 27ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em setembro passado, junto a outros poetas brasileiros. O poema homônimo, ainda, sagrou-se finalista da 36ª Noite da Poesia, concurso literário da UBE/MS, em agosto passado. Com 60 páginas, o livro possui 15 poemas, que inclui os títulos “Silente nevoeiro”, “Rosa-do-deserto” e “Ar-recifes”, este com um tributo ao poeta marginal Miró da Muribeca.
Dias descreve o processo criativo: “Procuro, em meus versos, dar vazão à eloquência daquilo que vem, ou seja, tudo o que chega à nossa percepção como fenômeno quase imperceptível: as cores, os sons inauditos, as formas breves, as auras, mas, sobretudo, as coisas esquecidas e menores, tais quais a poeira, a névoa e, por fim, a bruma”, comenta.
Evocando traços mnemônicos em suas experiências de vida por várias regiões do Brasil (Sudeste, Nordeste, Sul e Centro-Oeste), além de referências mitológicas e intimistas, o livro revela uma delicada reflexão poética sobre a fragilidade do mundo e os mistérios que o permeiam. Débeis Brumas oferece uma experiência lírica que mescla filosofia, literatura e um apelo estético profundamente sensível às nuances do quase invisível.
Sobre o autor – Rafael Dias vive dialéticas territoriais. Nascido em Niterói (RJ), mudou-se com apenas um ano de vida para Araruama, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, e, ao fim da infância, migrou para Recife. Na capital pernambucana, formou-se jornalista e mestre em Comunicação pela UFPE. Posteriormente, foi a Florianópolis, onde obteve seu PhD em Filosofia pela UFSC e formou-se professor. Atualmente, reside no Mato Grosso do Sul, onde atua como docente concursado.
O autor do livro é, ainda, membro do Núcleo de Estudos Benjaminianos (Neben), aprovado pelo CNPq, desde 2012, e coorganizador do livro “Imprevistos de Arribação: Publicações de Osman Lins nos Jornais Recifenses”, de 2019, via edital Funcultura/Governo de Pernambuco. Filho da professora de Letras aposentada Maria dos Anjos Batista, de origem pernambucana, e do fotógrafo Sílvio Dias (in memoriam), natural de Campos dos Goytacazes (RJ), Rafael é formado em jornalismo e com mestrado em Comunicação pela UFPE, além de ter obtido uma licenciatura e um doutorado em Filosofia pela UFSC. Entre 2005 e 2017, trabalhou nos jornais Diario de Pernambuco e Folha de Pernambuco, no Recife, e Diário Catarinense (Grupo RBS), em Florianópolis.
Sobre a editora – Criada em 2015, a Urutau é uma editora independente com sede em São Paulo, Brasil, e em Lisboa (Portugal), além de ter atuação na Galiza, comunidade autônoma na Espanha. Com um catálogo diversificado que inclui obras de literatura, artes visuais, acadêmicos, infanto-juvenis, traduções, política e fantasia, a editora acredita no papel político da literatura como uma forma de dar voz às vozes silenciadas das ruas. O compromisso da Urutau é com a multiplicidade e a revelação de novas perspectivas, promovendo autores que dialogam com as complexidades do mundo contemporâneo.
Um reflexo disso são os recentes prêmios angariados pela casa editorial paulista. Os escritores Aramyz, Eli Carrias e Tom Correia comemoraram a lista do Oceanos como semifinalistas em edições anteriores, e mais uma vez, agora em 2024, a Urutau emplacou outros seis semifinalistas neste que é o maior prêmio da língua portuguesa, eis eles: Fellipe Fernandes F. Cardoso, Luciana Annunziata, Flora Lahuerta, Jorgeana Braga, Piero Eyben e Rogério A. Tancredo. Recentemente, Giulia Barão foi laureada com o Prêmio Açorianos. E sagraram-se finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura 2024 Beatriz Reis e Giovana Proença.
Serviço:
Ciclo de lançamentos do livro de poesia Débeis Brumas, de Rafael Dias, no Recife
Dia 10/01 (sexta), às 19h30 – Noite de autógrafos na Livraria Imperatriz do Shopping Recife (2º piso, R. Padre Carapuceiro, 777 – 249 – Boa Viagem)
Dia 11/01 (sábado), às 14h – Roda de conversa sobre arte, paisagem e poesia no Instituto Ploeg (Rua de Santa Cruz, 190, Boa Vista), com Maria do Carmo Nino, Lourival Holanda e Fernando de Mendonça, com mediação de Márcio Bastos
Valor: Entrada franca. Preço do livro: R$ 50 (no site da Urutau). Na noite de lançamento na Livraria Imperatriz, a obra será comercializada com 10% de desconto aos primeiros leitores. Dados do livro “Débeis brumas”: 60 páginas, brochura, formato 13cm x 16,5 cm, papel polén 90g, Editora Urutau (São Paulo), 1ª ed., dezembro de 2024.
Mais informações: https://editoraurutau.com









