Documento sigiloso da ditadura revela que Bethânia foi fichada e rotulada de “marginada” por serviço de informação
Da Redação
Entre os arquivos que constam no antigo Sistema Nacional de Informação (SNI) que eram, até então, considerados sigilosos, está um dossiê sobre a cantora Maria Bethânia. Pela primeira vez, esse arquivo foi divulgado pela imprensa. Em matéria publicada no jornal Correio*, assinada por Jairo Costa Jr., foram apresentados detalhes do documento de nove página, compilado entre maio a julho de 1971.
O dossiê revela o nível de monitoramento que o aparato estatal de inteligência, personificado no SNI, impunha aos artistas brasileiros considerados subversivos e ameaças à ordem instaurada pelos generais. Esse monitoramento ganhou ainda mais força a partir edição do Ato Institucional Nº 5, o AI-5, que introduziu o período de maior perseguição política e social da ditadura militar.
Segundo a reportagem, a origem do relatório sobre Bethânia é um pedido de busca encaminhado à Agência Central do SNI em 14 de maio de 1971 pela área de inteligência interna do Ministério das Relações Exteriores (MRE).
“A fim de atender solicitações de órgãos dêste Ministério, a Divisão de Segurança e Informações (DSI) agradeceria ser informada, com a possível urgência, dos eventuais antecedentes das pessoas abaixo relacionadas”, destaca o ofício com o carimbo “CONFIDENCIAL” em letras garrafais e a lista de quatro alvos. No topo, aparece Maria Bethânia, seguida por um breve resumo, sendo que o nome da mãe da cantora grafado de forma incorreta: Claudiana, em vez de Claudionor Viana Veloso.
A justificativa usada para pedir o levantamento é descrita no fim do requerimento: “A DSI/MRE informa, outrossim, que a cantora Maria Bethânia e o Conjunto Terra Trio foram postos à disposição do Itamaraty pela Gravadora de Discos Phillips a fim de atender a programação dêste ano na América Central”, emenda o documento, ao citar o celebrado grupo com o qual Bethânia manteve uma das parcerias mais expressivas e incensadas de sua carreira e da história da MPB. O trio era formado pelos irmãos Ricardo e Fernando Costa, baixista e baterista, e pelo pianista José Maria Rocha, justamente os três outros alvos da devassa.
O pedido do Itamaraty, epíteto usado na diplomacia brasileira para se referir ao MRE, deu origem ao relatório do SNI sobre Bethânia, composto por dez tópicos extraídos junto a diversas fontes, datado de 18 de maio daquele ano e escalonado em ordem cronológica. O primeiro deles, de agosto de 1965, foi produzido pelos agentes do Centro de Informações da Marinha (Cenimar). Historiadores dedicados a pesquisar as duas décadas do regime militar iniciado em abril de 1964 classificam o Cenimar como o mais eficaz dos órgãos de espionagem das Forças Armadas na rede de repressão composta ainda pelo CIE (Exército) e o Cisa (Aeronáutica).
“Em Salvador-Bahia, foi realizado dia 20 às 21,00 hs. um SHOW com a artista-marginada, no TEATRO VILA VELHA. O referido show foi organizado pela FRENTE ESTUDANTIL COMUNISTA, ligado à ESCOLA DE TEATRO. O auditório estava superlotado, constituindo grande números de elementos já conhecidos da polícia como AGITADORES no SETOR ESTUDANTIL. Muitos dêles exibiram suas CAMISAS VERMELHAS (os mais fanáticos). Durante todo o espetáculo foi feita uma verdadeira propaganda comunista através da artista-marginada”, aponta o documento.
Trata-se da primeira vez que a utilização do termo “marginada” para rotular Bethânia aparece em um documento confidencial do SNI disponibilizado ao público. “A mesma, antes de cantar, declamava sempre versos de fundo comunista, outras vezes fazia críticas aos COMANDO MILITARES e aos PODERES CONSTITUÍDOS. Em uma série de declamações, vale salientar que a referida artista declamou em língua castelhana, cujos versos foram de elogios aos revolucionários de CUBA. Foi também vendido um folheto com o título ‘É UM TEMPO DE GUERRA’ de autoria de BERTOLD BRECHET”, emendam os agentes da repressão, ao evidenciar o temor dos militares com as ideias do dramaturgo e poeta alemão profundamente inspirado pelo socialismo.
Nos demais tópicos do relatório, que utiliza também o noticiário da imprensa, Bethânia é sempre descrita como “a marginada”, seja por assinar o manifesto de artistas brasileiros intitulado “CARTA ABERTA AO PRESIDENTE DA REPÚBLICA” ou por apoiar “intelectuais presos por ocasião da instalação da II Conferência Interamericana da OEA”, realizada do Rio de Janeiro em dezembro de 1965. Em outro trecho, baseado nos relatos do Cenimar datados de 3 de fevereiro de 1966 e transcritos a partir de um informe do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) na Bahia, o termo volta a aparecer para se referir à cantora.
“Em anexo ao presente prontuário, carta da DOPS/BAHIA, na qual faz referência a peça ‘Show Bossa Nova’, de autoria de AUGUSTO BOAL, que se realizou no Teatro Vila Vela, BA. A MARGINADA é a principal artista da peça, que faz críticas as (sic) Forças Armadas”, destaca o relatório. Mais adiante, em trecho com data de 25 de agosto de 1967, a cantora é apontada como uma das personalidades que “subscreveu manifesto divulgado, ontem, em SP, de apoio ao congresso da extinta UNE (União Nacional dos Estudantes), afirmando que ‘quando se prometem violências a estudantes que pretendem debater as questões que dizem respeito à vida universitária e à vida da Nação, nos levantamos para dizer que estamos solidários com os estudantes'”.
Os dois últimos relatos incluídos no documento, elaborados pelo Centro de Informações do Exército (CIE) e pelos próprios agentes do SNI, são reveladores da paranoia que dominava os serviços de inteligência durante os governos dos generais Costa e Silva e Emílio Garrastazu Médici, o mais linha dura dos presidentes do regime militar. Diz o primeiro, datado de 24 de abril de 1968: “SÃO PAULO. Atividades do ‘Grupo Baiano’ da Música Popular Brasileira, da qual a marinada é um dos componentes”. Trata-se de óbvia referência ao movimento do qual faziam parte Caetano, Gil, Gal Costa e Tom Zé, todos na mira dos órgãos de repressão. O segundo, de 27 de dezembro do mesmo ano, é mais direto ao se referir a Bethânia: “Está relacionada entre os elementos veiculadores de caráter subversivo em meios artísticos”.
Em contato com a assessoria da cantora, a reportagem recebeu a resposta da produtora pessoal de Bethânia, Ana Basbaum, que afirmou que ela prefere não lembrar desse período.
“Conversei muito com ela, mas ela não quer lembrar deste período. Ela quer esquecer este momento do país. Sinto muito!”, diz o e-mail definitivo enviado à reportagem pela produtora de Bethânia. Pelo sim, pelo não, o relatório deve ter sido decisivo para que o Itamaraty desistisse de incluir a cantora na programação cultural durante a missão da diplomacia brasileira, já que o nome dela e também dos integrantes do Terra Trio não constam nos registros do Ministério das Relações Exteriores referentes à passagem por Honduras, Nicarágua, Guatemala e Costa Rica, entre outros, feita em 1971 pelo então chanceler Mário Gibson Barboza, o primeiro ministro de estado do país a visitar países da América Central.








