quinta-feira, 25 de julho de 2024

“E o tempo encontrou Randam” por Ernesto Marques

Foto: Reprodução

Ernesto Marques

Nem fugiu, nem foi perseguido pelo tempo. Pelo contrário, foram grandes amigos, mas a questão é que em algum momento nós paramos e ele, inexorável, prossegue. Para quem continua, oportunidade pra aprender com quem parte. E José Jorge Randam deixou um legado precioso.

Desde a primeira vez em que esteve com um pé do outro lado da vida e voltou, colheu e compartilhou lições em seu livro meio ficção, meio autobiográfico, “A inclusão do medo”. Em um de seus derradeiros escritos publicados, fez uma homenagem tocante ao colega radialista França Teixeira e contou como reaprendia a andar, depois de um duplo AVC isquêmico.

Jamais poderia supor tornar-me amigo do homem que eu via quando era criança, ainda com a tv transmitindo em preto e branco. Já o conheci já adulto. No primeiro contato, aquela voz marcante me transportou para as tardes em que o via na telinha. Só compreendi com quem estava falando quando fui pedir espaço na sala de reuniões da ABI para firmar um convênio com a antiga Escola Técnica Federal da Bahia para formar radialistas.

Então vice-presidente da ABI, estava interino durante as férias de Samuel Celestino. Acaso? Coincidência? Não, prefiro acreditar mesmo na minha fantasia de vidas passadas e agradecer ter merecido reencontrar um irmão nesta, mesmo com idade para ser filho. Eu estava na presidência do Sindicato dos Trabalhadores em Rádio, Televisão e Publicidade, que passou a existir oficialmente a partir de novembro de 1957, quando ele foi ao Rio de Janeiro buscar a carta sindical no Ministério do Trabalho.

Foi caso de amor à primeira vista, brincávamos, porque selamos uma amizade que parecia ter vindo de outras vidas que ele, como católico fervoroso, desacreditava. Mas gostava da brincadeira. Certa vez disse que me gostava como a um filho. Protestei: filhos, ele teve quatro com o amor da sua vida – a inseparável Odete. Diga que me ama como a um irmão, porque é assim que eu me sinto. E assim fui acolhido por eles e pelos filhos que tive a alegria de conhecer e honram os pais, retribuindo todo amor que receberam desde a concepção.

“Sou um administrador de afetos”, definiu-se com precisão. Gerenciou com competência os afetos presenteados pela vida. Conheceu a fama como comunicador e rádio-ator, construiu uma vitoriosa agência de propaganda que cresceu e envelheceu junto com ele. Depurou relacionamentos, guardou consigo as amizades que não refluíram quando o tempo, sempre Ele, passou a indicar perda progressiva dos atrativos para amigos da onça.

Abriu mão desses atrativos para preservar a dignidade e a integridade. Fechou a agência e manteve o respeito e o carinho dos seus ex-funcionários. Abriu uma editora e, com o velho amigo Antônio Sampaio, compartilhou sonhos literários. Soube sair de cena muito antes de nos deixar.

Não conheci melhor administrador de afetos. O maior de todos, o seu “Bem”. Quando a vida me fez duvidar do amor, recorri ao casal mais apaixonado que conheci. Sim, o amor existe. E quem quiser prova, eles estão ai, porque é o tipo de amor que não morre. José Jorge e Odete são puro amor.

Ícone de uma geração de estrelas dos anos dourados do rádio baiano, pioneiro da nossa tv e um dos primeiros rostos a aparecer numa transmissão televisiva, locutor-galã, rádio-ator, empresário… Randam é um dos maiores nomes da história da comunicação baiana. Jamais será esquecido.

Os médicos disseram não entender como não tinha partido antes. Brincadeira dele e do amigo generoso, o Tempo. Randam partiu no dia do seu aniversário. Não morreu, simplesmente desnasceu. Um dia a gente se reencontra de novo, meu amado irmão.

Ernesto Marques é jornalista e radialista. Presidente da Associação Bahiana de Imprensa (ABI).

*Artigo publicado originalmente no site da ABI.

24 de fevereiro de 2023, 19:49

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