“Empresários precisam atuar de forma complementar na loja física e no digital”, alerta superintendente do Sebrae Bahia
Thyara Araujo
A flexibilização de medidas restritivas na Bahia já permite que micro e pequenas empresas possam voltar ao caminho da recuperação econômica, após terem seus negócios tão prejudicados por conta da pandemia do coronavírus. Porém, ainda existe a necessidade de manter protocolos de segurança sanitária e distanciamento nos estabelecimentos. Ao Toda Bahia, o superintendente do Sebrae Bahia, Jorge Khoury, falou sobre os impactos da pandemia aos micro e pequenos empresários, as mudanças nos hábitos de consumo da população, as adaptações que empresários precisam fazer para que atuem de forma complementar entre a loja física e o digital, além de citar ações do Sebrae que ajudam pequenos negócios a se desenvolverem e aumentarem suas vendas. Confira!
Toda Bahia – Como o senhor avalia o momento atual da pandemia para as pequenas e micro empresas na Bahia? Acredita que a redução de medidas restritivas já é suficiente para a total retomada do faturamento delas?
Jorge Khoury – A pandemia impactou de forma severa os micro e pequenos negócios, e os empresários precisaram, de fato, mostrar sua capacidade de resiliência para enfrentar esse momento. Alguns remodelaram seus negócios e um dos pontos centrais desse período foi a necessidade de maior investimento em presença digital, pois, frente às medidas restritivas, esse se tornou o principal meio de comunicação e de vendas. Portanto, são impactos que não se revertem de uma hora para outra. Obviamente, a flexibilização das medidas restritivas coloca os micro e pequenos negócios de volta ao caminho da recuperação. Mas é preciso também levar em conta outros aspectos, sobretudo diante de mudanças significativas nos hábitos de consumo da população, aos quais os pequenos negócios precisam já estar adequados. Os especialistas apontam que essas mudanças vieram para ficar, mesmo após termos vencido por completo a pandemia, e, nesse momento, é importante que se diga que ainda existe a necessidade de se manter protocolos de segurança sanitária e distanciamento nos estabelecimentos.
“A ideia da Sala do Empreendedor é que os donos de pequenos negócios ou aqueles que buscam montar uma empresa possam obter todas as informações necessárias, tanto do ponto de vista de gestão quanto da formalização, dos tributos, da operação local.”
TB – Atualmente, que tipos de parcerias têm sido realizadas entre o Sebrae Bahia e as prefeituras para ajudar as pequenas e micro empresas a retomarem suas atividades e, assim, melhorarem seus faturamentos?
Jorge Koury – As prefeituras são parcerias importantes do Sebrae no que se refere à construção de políticas públicas que beneficiem o ambiente de negócios do município. Contamos com o apoio das gestões municipais para levar os serviços e orientações do Sebrae aonde não temos presença física, através, por exemplo, das Salas do Empreendedor. A disponibilização desses espaços está prevista no texto da Lei Geral da Micro e Pequena Empresa e as prefeituras são responsáveis pela estrutura, física e de pessoas. Cabe ao Sebrae prestar todo o suporte na capacitação aos servidores destinados ao atendimento. A ideia da Sala do Empreendedor é que os donos de pequenos negócios ou aqueles que buscam montar uma empresa possam obter todas as informações necessárias, tanto do ponto de vista de gestão quanto da formalização, dos tributos, da operação local. Trabalhamos ainda fortemente com o programa Cidade Empreendedora, que atua na inserção dos pequenos negócios na agenda municipal, no desenvolvimento de lideranças empreendedoras locais, na participação dos pequenos negócios nas compras governamentais, entre outras frentes.
TB- A pandemia trouxe diversos desafios aos donos de micro e pequenas empresas e mostrou como a presença digital tornou-se uma necessidade de sobrevivência. Quais mudanças desenvolvidas nesse período o senhor acredita que deverão continuar sendo adotadas mesmo no pós-pandemia?
JK – Costumo fazer uma referência a um dos principais consultores de educação executiva do país, Oscar Motomura, que, em determinada ocasião, afirmou que não poderíamos mais falar em “futurismo” e sim em “agorismo”. Ouvi essa fala dele ainda em 2019, antes da pandemia, e isso já trazia algo evidente para nós, que é a velocidade das mudanças. A pandemia acelerou ainda mais essas mudanças, e o que era tendência virou necessidade. No Sebrae, buscamos investir ainda mais em conteúdos focados nessa área, para auxiliar a transição dos empreendedores que ainda atuavam exclusivamente de forma analógica, e aprimorar aqueles que já estavam presentes nas redes sociais e na web de uma forma geral. E quando falamos em uma aceleração desse processo, nos referimos também à mudança dos hábitos de consumo. As pessoas passaram a consumir mais pela internet, o que não significa dizer que a loja física vai deixar de existir. Mas, desde agora, os empresários precisam atuar de forma complementar no físico e no digital, buscando promover experiências positivas ao consumidor, que vão muito além da compra em si.
“O Sistema S tem um reconhecido histórico de contribuições para a sociedade, reunindo instituições que já trabalham em diversas áreas do campo do conhecimento, da capacitação e qualificação.”
TB- O ministro da Economia, Paulo Guedes, já teceu duras críticas ao Sistema S e defende a redução de verbas para, assim, ajudar o governo a reequilibrar as contas públicas. Além dele, em julho deste ano, o secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, disse que é preciso “passar a faca” no Sistema S. Ele defendeu a transferência de R$ 6 bilhões do Sistema S ao programa de qualificação profissional formulado pelo governo para jovens de baixa renda. Na ocasião, em ‘live’ do jornal Valor Econômico, Sachsida também afirmou: “está na hora de o Sistema S ajudar. Temos um sistema que tem bilhões de reais em caixa, tem bilhões de reais em imóveis. É inaceitável esse sistema não aceitar contribuir”. Como o senhor enxerga tudo isso?
JK – O Sistema S tem um reconhecido histórico de contribuições para a sociedade, reunindo instituições que já trabalham em diversas áreas do campo do conhecimento, da capacitação e qualificação. No contexto da pandemia, ano passado, por exemplo, o Sebrae disponibilizou metade da receita ao Fundo de Aval às Micro e Pequenas Empresas, que funciona como um tipo de garantia para que os donos de pequenos negócios possam ter acesso a crédito no sistema financeiro. Fizemos uma parceria com a Caixa, que destinou linhas exclusivas para pequenos negócios, tendo a garantia do fundo. No que se refere ao Sebrae, nossa contribuição é assim focada no fortalecimento dos micro e pequenos negócios, que formam 98% do tecido empresarial do país e respondem por mais da metade dos empregos formais no Brasil e na Bahia. Portanto, são agentes fundamentais e contribuem efetivamente para o desenvolvimento econômico, requisitando apoio do Sebrae de forma direta, em cursos, consultorias, capacitações, ou se beneficiando das nossas parcerias e atuação no ambiente de negócios com os legisladores e poder público. Essa é a nossa missão primordial, que se soma aos esforços de todo o Sistema S.
TB – A sexta edição da Semana Sebrae de Capacitação Empresarial, realizada pelo Sebrae de 4 a 8 de outubro, trouxe uma série de cursos, oficinas, encontros e seminários sobre inovação, perspectivas econômicas, como turbinar as vendas, como oferecer um atendimento de excelência, entre diversos outros assuntos. De que forma essa experiência colabora para o crescimento de pequenos negócios?
JK – O Sebrae é uma instituição de conhecimento. A Semana de Capacitação é um evento em que buscamos concentrar tudo o que a organização oferece nas agendas ao longo do ano. Portanto, é um evento totalmente dedicado à disseminação de conhecimento e conteúdos que podem ser aplicados na prática, no dia a dia das empresas. E, a cada ano, precisamos observar o contexto dos pequenos negócios, para saber qual o caminho que vamos adotar durante a Semana Sebrae. Esse ano, em nossa sexta edição, o foco esteve no processo de retomada das vendas, trazendo, principalmente, conteúdos dessa área, por meio de seminários, cursos e oficinas, contando com a participação de especialistas de renome nacional. Pudemos voltar a realizar encontros presenciais em mais de 90 municípios, mas também mantivemos nossa programação online, para poder chegar a empreendedores de todo o estado. Ao todo, entre os eventos online e presenciais, registramos mais de 24 mil inscrições, o que mostra como os empreendedores baianos abraçam o conteúdo que ofertamos para gerar resultados em suas empresas.
“Com o desemprego, as pessoas buscam alternativas de renda com maior urgência. Isto é o que conhecemos como empreendedores por necessidade, que são aqueles que precisam obter uma nova fonte de renda em curto prazo, o que, geralmente, faz com que iniciem um negócio sem planejamento adequado.”
TB – Levantamento do Sebrae mostrou que, mesmo na pandemia, mais de 1 milhão de pequenas e micro empresas (PMEs) foram abertas no Brasil entre janeiro e abril deste ano. A atividade de comércio varejista de vestuário e acessórios lidera o ranking de novos empreendimentos. Para o senhor, existe uma tendência de que esse número seja ampliado cada vez mais? Acredita que o fator desemprego é o que mais contribui para o surgimento de novas pequenas e micro empresas? Além desse, que outros elementos colaboram para isso atualmente?
JK – Sem dúvida, o fator desemprego contribui para o surgimento de mais micro e pequenos negócios, mas não é o único. Temos a figura jurídica, por exemplo, do Microempreendedor Individual, que facilitou a formalização de muitas atividades, com um processo mais simples e desburocratizado. Hoje, o maior percentual de pequenos negócios está inserido na faixa do MEI. Na Bahia, são mais de 990 mil micro e pequenas empresas, sendo que mais de 670 mil são microempreendedores individuais. Com o desemprego, as pessoas buscam alternativas de renda com maior urgência. Isto é o que conhecemos como empreendedores por necessidade, que são aqueles que precisam obter uma nova fonte de renda em curto prazo, o que, geralmente, faz com que iniciem um negócio sem planejamento adequado. Buscamos atuar para que essas pessoas possam estruturar os seus caminhos, para que a atividade, de fato, se torne sustentável. Para além do fator necessidade, que pode ser mais expressivo em períodos de alta no desemprego, temos também ações de desburocratização no processo de formalização de empresas. Em muitos municípios baianos, incluindo Salvador, já atuamos em parceria com as prefeituras, para que tenhamos ambientes empreendedores mais favoráveis. Isso, sem dúvida, vai estimular, cada vez mais, aqueles que têm ideias de negócio e desejam colocar em prática.








