Museu conta as aventuras de ucraniano-baiano que deu 5 voltas ao mundo de veleiro
Alexandre Reis
Se não fosse uma generosa dose de coragem, o homem nunca teria cruzado os oceanos, feito que, em boa medida histórica, devemos aos nossos colonizadores. O engenheiro naval Aleixo Belov, hoje com quase 80 anos, não é português, mas sabe bem o que é ter de superar o medo para enfrentar as intempéries do mar em busca da recompensa que, no caso dele, nunca foi material, mas sim espiritual. Ucraniano naturalizado brasileiro, deu 5 voltas ao mundo carregando as bandeiras do Brasil e da Bahia, sendo as 3 primeiras sozinho. Decidiu contar as aventuras em um museu construído em Salvador, cidade que o acolheu.
“Sozinho a bordo vou jogando o meu xadrez com as forças da natureza. Só que a natureza joga bem. Ganhar é impossível, e visamos apenas o empate”, escreveu Belov em seu primeiro livro, “A Volta ao Mundo em Solitário”, cuja citação aparece destacada em um dos painéis do Museu do Mar, inaugurado em dezembro de 2021 e localizado em um casarão tombado no Largo do Santo Antônio Além do Carmo, de onde se pode ver o porto da cidade e parte da Baía de Todos-os-Santos (abre de terça a domingo, das 10h às 18h, e a entrada custa R$20 a inteira).

O principal atrativo do museu é o veleiro Três Marias, construído em Salvador pelo próprio Belov, no quintal de casa, e n qual ele deu 3 das 5 voltas ao mundo. “Comprei a fibra de vidro e a resina faturada para pagar em 3 meses, pois não tinha um tostão no bolso. Mas, o casco tinha que sair de qualquer jeito. Daí em diante a coisa não parou mais. Dois anos e nove meses depois, o barco foi para a água”, relatou no mesmo livro.
A embarcação finalmente zarpou da Baía de Todos-os-Santos para a primeira volta ao mundo em março de 1980. Com pouco dinheiro, Belov não parava em marinas e passava a maior parte do tempo no barco, contemplando o horizonte e as estrelas. Ele evitava se arriscar em locais desconhecidos, pois não tinha sequer rádio ou bote salva-vidas. Mas retornou inteiro a Salvador 14 meses depois, quando foi homenageado pela Marinha do Brasil como o primeiro velejador a dar a volta ao mundo de forma solitária em um barco a vela com a bandeira brasileira.
Além da embarcação (para caber no casarão foi preciso cortar uma parte do mastro), o museu, que tem três pavimentos, apresenta documentos, cartas náuticas, fotos, vídeos, miniaturas, ossadas e objetos curiosos trazidos de partes do mundo por onde Belov passou. Com o uso da tecnologia, há, inclusive, um telão no qual é possível acompanhar as rotas feitas pelo velejador.
No segundo pavimento, há uma miniatura do veleiro Fraternidade – esta embarcação é bem maior do que a Três Marias – , no qual Belov construiu uma escola para formar velejadores e deu outras duas voltas ao mundo, desta vez com seus alunos como tripulação. No terceiro pavimento, há uma galeria com várias fotos impressionantes das viagens do engenheiro, inclusive à Antártica e ao Alaska, regiões que visitou com tripulação a bordo do Fraternidade. O museu tem ainda uma lojinha de suvenir com livros de Belov e uma cafeteria que serve deliciosos toasts recheados com pão feito no próprio local.
Nascido em 1943, na Ucrânia (na época, antiga União Soviética e que hoje está ameaçada de ser novamente invadida pela Rússia), Aleixo Belov chegou ao Brasil ainda criança, em 1949, como emigrante de guerra. Se estabeleceu na capital baiana. Quando jovem, se tornou um hábil mergulhador, até descobrir que tinha como maior desejo construir um veleiro para dar a volta ao mundo. Por isso, tratou de estudar e aprender bastante, inclusive técnicas de navegação astronômica.
A primeira viagem a vela de Belov foi a bordo de um saveiro chamado Vendaval. Ele zarpou da rampa do Mercado Modelo, em Salvador, com destino a um povoado do município arquipélago de Cairu, no baixo sul do estado. Depois, o aventureiro fez várias outras viagens a bordo de embarcações de terceiros ou dele próprio, inclusive para outros continentes, adquirindo experiência.
A partir da segunda volta ao mundo nos Três Marias, já havia adquirido uma condição financeira melhor e fundado a Belov Engenharia Ltda., grande empresa da área de engenharia naval no país. A última viagem ao redor do globo aconteceu a bordo do Fraternidade, com uma tripulação formada por aprendizes de velejadores, em 2018.
Galeria de fotos do museu









