segunda-feira, 27 de junho de 2022

O ‘fracasso’ do humilde Antônio – por Davi Lemos

Foto: Reprodução

Por Davi Lemos*

Não fosse uma carta de seu contemporâneo e superior na Ordem dos Frades Menores, São Francisco de Assis, talvez não tivéssemos tomado conhecimento do gênio estupendo de Santo Antônio de Pádua, cujo saber teológico rendeu ao frade lusitano os epítetos de “martelo dos hereges” e, este título oficial conferido pelo Igreja, de “Doutor Evangélico”. O desejo maior de Antônio era viver escondido, longe da fama mundana; para tanto, até mesmo seu notável saber ele queria que fosse esquecido pelos homens.

A carta de Francisco ao Irmão Antônio é curtíssima, quase um tuíte: “A meu caríssimo Irmão Antônio, eu, Irmão Francisco, saúdo em Jesus Cristo. Acho bom que ensines a santa teologia aos nossos Irmãos; mas de forma que nem em ti, nem neles (o que muito ardentemente desejo), se venha a extinguir o espírito de oração, conforme a regra que professamos. Adeus”.

Após o recado de Francisco, Antônio aplicou-se nos estudos iniciados quando ainda era monge agostiniano, mas seguindo a orientação do pobrezinho de Assis que, ao fundar sua ordem religiosa, queria que todos os irmãos vivessem como mendigos e que não estudassem – no século XII e XIII, quando viveram os santos franciscanos, era comum, como ainda hoje em menor medida, que os jovens ingressassem na vida religiosa como maneira de progredir nos estudos.

A preocupação de Francisco não era desarrazoada uma vez que, naquela época como atualmente, os estudos poderiam levar um incauto a perder a fé ou tê-la como algo de menor importância. Há um ditado que já ouvi de alguns religiosos que diz que “o coração perde tudo quando ganha a cabeça”. Encontrar este equilíbrio entre razão e fé era então o desafio de mentes prodigiosas como a de Antônio, nascido Fernando, em Lisboa.

“Somente uma alma que ora pode progredir na vida espiritual: este é o objeto privilegiado da pregação de Santo Antônio”. Este é um comentário contemporâneo, feito pelo papa emérito Bento XVI em uma de suas catequeses sobre os santos, quando meditou sobre a vida de Santo Antônio. Como se pode ver, o frade lusitano e tão amado no Brasil conseguiu manter sua personalidade íntegra, cultivando as asas da razão e da fé, pondo o saber teológico em comunhão com a prática da oração quotidiana.

Santo Antônio, dizem seus biógrafos, sabia de cor toda a Bíblia e imagino que, ao tomar consciência da abundância de dons intelectuais, era arrebatado por fala de Jesus registrada pelo evangelista Lucas: “Porque todo aquele que se exaltar será humilhado e todo aquele que se humilhar será exaltado”. Mas também penso que Antônio não lia ou recordava esta passagem com medo de ser punido, como ocorre com escravos, mas com amor sobrenatural.

A missão primeira de Antônio dada por Francisco era o ensino da teologia somente aos irmãos do convento de Bolonha, na Itália, mas, devido à fama que se espalhava sobre seu vasto saber, foi chamado às universidades que floresciam e suas palavras ressoaram por toda a cristandade da época. Há três anos, escrevi aqui mesmo neste Toda Bahia, mas sumariamente, sobre a desconhecida doutrina do santo mais amado pelos brasileiros.

O santo português, a despeito do nascimento nobre e da predestinação às grandes coisas, teve na humildade a sua principal virtude. Queria ser o menor entre os frades menores franciscanos e passar desconhecido pela Terra, mas o pobre frade “fracassou” em seu intento: somente no Brasil, inúmeras casas encerram, nesta segunda-feira, 13 de junho de 2022, a trezena em honra a Antônio taumaturgo e casamenteiro. Daqui onde moro ouço minhas vizinhas cantarem, neste exato momento que finalizo este texto.

*Davi Lemos é jornalista

13 de junho de 2022, 19:28

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