terça-feira, 12 de maio de 2026

Entrevista: “O PSDB nunca quis esvaziar o DEM”, diz Imbassahy, que torce por pazes entre Neto e Doria

Foto: Divulgação

Alexandre Reis

Ele anda meio sumido da cena local, mas garante que está atento ao que acontece na Bahia. Ex-governador do estado, ex-prefeito de Salvador, ex-ministro, ex-deputado e atual secretário especial do Escritório de Representação de São Paulo em Brasília (Egesp), Antonio Imbassahy (PSDB) bateu um papo com o Toda Bahia sobre o trabalho desenvolvido por ele durante a pandemia e também, claro, a respeito da política nacional e local.

Aliado do governador de São Paulo, o tucano João Doria, não passou despercebida por Imbassahy, por exemplo, a agenda que o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, também do PSDB, terá em Salvador neste fim de semana. Também não passaram em branco as discussões sobre o apoio tucano a uma eventual chapa do ex-prefeito da capital ACM Neto (DEM) ao governo da Bahia. Para Imbassahy, seria importante que Neto fizesse as pazes com Doria. Confira a entrevista!

Toda Bahia – Alguns apoiadores seus dizem que você deixou a Bahia de lado e foi para São Paulo…
Imbassahy – Nunca deixei a Bahia de lado, até porque foi o estado onde fiz toda a minha vida pública. Em 2019, João Doria (governador de São Paulo, do PSDB) me convidou para ser secretário de estado do governo
paulista em Brasília. Defendo os interesses do estado de São Paulo junto ao governo federal, ao Congresso Nacional, ao Judiciário, aos tribunais de contas e fiscalização. Trabalho em um escritório localizado em Brasília. Divido meu tempo entre Brasília e São Paulo, mas a sede é em Brasília, para não ficar me deslocando o tempo todo. Mas acompanho o que acontece na Bahia e nunca abandonei meu estado e minha cidade, Salvador.

TB – Como tem sido esse trabalho de articulação durante a pandemia?
Imbassahy – Posso dizer que ajudei muito no desenvolvimento da CoronaVac. Participei de vários encontros no Ministério da Saúde, também com a presença do Butantan, por meio do Dimas Covas (diretor do instituto). Também fiz articulações junto ao Congresso Nacional em prol da vacina, ao Ministério Público e ao próprio Palácio do Planalto, onde estive duas vezes conversando com autoridades federais. Nesse momento, estamos ajudando a viabilizar a ButanVac, vacina nacional contra a Covid-19 que já iniciou a testagem em humanos, em Ribeirão Preto (SP), além de trabalhar para permitir a fabricação, no Butantan, dos insumos farmacêuticos necessários para que a CoronaVac seja totalmente produzida no Brasil.

“O Butantan fez um esforço extraordinário para conseguir o sucesso e a credibilidade que alcançou e, lamentavelmente, o governo federal, nessa atitude do presidente da República, atrasou o processo de vacinação. Isso é inexplicável.”

TBVocê acompanhou de perto as tensões entre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e João Doria envolvendo a CoronaVac, já tendo como pano de fundo as eleições de 2022?
Imbassahy – Acompanhei sim, e com muita tristeza. O que se esperava do presidente era incentivo, apoio e estímulo para a produção da vacina do Butantan, um instituto que tem 120 anos de história e que tem como função básica ofertar vacinas a todos os brasileiros. O Butantan fez um esforço extraordinário para conseguir o sucesso e a credibilidade que alcançou e, lamentavelmente, o governo federal, nessa atitude do presidente da República, atrasou o processo de vacinação. Isso é inexplicável. Nas duas vezes em que estive no Planalto conversando com autoridades sobre a vacina, alertei sobre isso, sobre como era importante prestigiar o Butantan, e não atuar contra o instituto por questões ideológicas.

TBComo você avalia as denúncias de corrupção na compra de vacinas envolvendo o presidente, o Ministério da Saúde e parlamentares do Centrão? Acha que há espaço já para o impeachment de Bolsonaro?
Imbassay – Tenho acompanhado com surpresa. As pessoas já tinham no seu nível de conhecimento que o governo federal retardou o processo de vacinação. Mas agora está surgindo uma situação extremamente grave, que são indícios de que vacinas compradas pelo Ministério da Saúde estavam sendo objeto de negociatas. São indícios fortes, e temos de aguardar a conclusão das investigações, sem fazer precipitações. Sobre o impeachment, do ponto de vista do ambiente político, percebe-se que é um processo complexo. Isso embora as diversas atitudes dele (do presidente) sejam absolutamente reprováveis e poderiam sim ser enquadradas como crime de responsabilidade.

TB – Ciro Gomes, presidenciável do PDT, se manifestou publicamente a favor do impeachment de Bolsonaro. Além disso, ele tem cobrando declarações públicas dos políticos interessados no Planalto em 2022 nesse mesmo sentido. Doria deveria fazer isso, em sua opinião, para não perder campo político no terreno do antibolsonarismo?
Imbassahy – Doria é, antes de tudo, governador de São Paulo, e não cabe ao governador do estado essa tarefa. Até porque uma decisão sobre a abertura do impeachment não cabe a ele, e sim ao Congresso Nacional. Quem tem de levantar provas contra o presidente é o Congresso, o Ministério Público, a Polícia Federal, os órgãos de fiscalização e controle. A prioridade máxima, o esforço enorme aqui, em São Paulo, é conseguir vacinar a população com a CoronaVac e com a ButanVac, que está se tornando uma perspectiva real. Outra prioridade é a recuperação da economia de São Paulo, que já tem dados sinais de retomada do crescimento.

“Olha, o Doria é filho das prévias. Ele já venceu várias, e todas deram a ele uma base forte, com vitórias retumbantes.”

TB – O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, que é um dos pré-candidatos à Presidência do PSDB, estará na Bahia neste final de semana, em busca de apoios para vencer às prévias do partido. Como você, que está com Doria, outro pré-candidato, vê essa movimentação?
Imbassahy – Olha, o João Doria é filho das prévias. Ele já venceu várias, e todas deram a ele uma base forte, com vitórias retumbantes. Vou apoiar e votar em Doria nas prévias do PSDB. Isso pelas qualidades dele como governador e pelos atributos pessoais, que são admiráveis. As prévias serão positivas, como já disse o governador Doria, e eu penso da mesma forma. É um processo muito saudável, que une o partido. Será uma prévia entre companheiros. O Eduardo Leite, o senador Tasso Jereissati (SP) e o ex-prefeito Arthur Virgílio (Manaus) são excelentes quadros também. De modo que as prévias irão revigorar o partido, instalar o debate ativo da militância, e delas sairá um candidato robusto à Presidência.

TB – Doria foi derrotado internamente no PSDB na proposta de garantir aos militantes tucanos o peso de 50% no processo de disputa interna. A proposta aprovada pela Executiva da legenda foi aquela apoiada por adversários do governador, a exemplo do deputado Aécio Neves (MG), e garantiu aos militantes o peso de 25%. Isso pode atrapalhar seu candidato e favorecer Eduardo Leite?
Imbassahy – O que a gente defendeu foi o conceito de que o voto do militante devia ser mais valorizado. Essa era a ideia. Foi assim que aconteceu nas prévias para a escolha do candidato a governador de São Paulo pelo PSDB. Dentro do partido, esse debate foi instalado e prevaleceu a tese de que os militantes deveriam ter peso de 25%. Ou seja, não prevaleceu a nossa proposta. Mas isso não invalida de forma alguma as prévias. Estamos confiantes de que podemos vencer a disputa, sabendo das qualidades de todos os companheiros que também vão disputar as prévias.

TB – Você tem articulado em prol de Doria junto aos tucanos na Bahia visando as prévias?
Imbassahy – Tenho conversado tanto na Bahia como em vários outros estados brasileiros. Até porque a minha função agora é mais nacional, em Brasília. Mas essas conversas levam em conta o respeito que temos por todos os pré-candidatos do PSDB que irão disputar as prévias. Todos têm grande valor.

“A gente entende que essa ida do Rodrigo Garcia para o PSDB teve sim um impacto no DEM, mas aconteceu em função de circunstâncias locais e sem o objetivo de prejudicar um parceiro nosso.”

TB – O presidente nacional do DEM, ACM Neto, declarou publicamente que rompeu com Doria depois que o governador, de olho nas eleições estaduais de 2022, atraiu para o PSDB o vice-governador de São Paulo, Rodrigo Garcia, que era uma das lideranças democratas. Você acredita que essa reaproximação entre Neto e Doria é possível e pode ocorrer a tempo das eleições?
Imbassahy – Isso aconteceu por uma circunstância local, de São Paulo. O PSDB é um partido orgânico em todo o Brasil, mas é muito forte em São Paulo, onde tem a principal base. O PSDB governa o estado há mais de 20 anos. E tem a perspectiva de manter essa posição de liderar o governo estadual. O Rodrigo Garcia é um dos
melhores quadros da política brasileira. Mas não houve um confronto, hostilidade ou tentativa de diminuir o DEM, de esvaziar o DEM, que é um grande parceiro do PSDB em São Paulo. A gente entende que essa ida do Rodrigo Garcia para o PSDB teve sim um impacto no DEM, mas aconteceu em função de circunstâncias locais e sem o objetivo de prejudicar um parceiro nosso. Vamos dar tempo ao tempo, pois o Brasil precisa de entendimento, sobretudo neste momento de crise. O Doria nunca brigou com Neto. E até o próprio Doria já deu declarações que compreende o posicionamento de Neto. O que tem de ter prevalecer na Bahia e no Brasil é o entendimento.

TB – O PSDB apoiou ACM Neto nas últimas eleições municipais em Salvador e faz parte da base de apoio do prefeito Bruno Reis (DEM). Essa dobradinha com o DEM vai continuar em 2022, na disputa pelo governo da Bahia?
Imbassahy – O PSDB tem uma relação histórica também na Bahia de parceria com o DEM. Essa perspectiva permanece. Agora, temos de aguardar também a evolução do quadro nacional. A eleição não é apenas na Bahia e esse quadro nacional influencia muito nas decisões dos estados brasileiros. Mas a perspectiva é de manter a boa relação (com o DEM).

TB – O PSDB está aí na briga para ter um espaço na chapa de ACM Neto. Se fala muito no nome do prefeito de Mata de São João, João Gualberto. Você considera a presença de um tucano na chapa como imprescindível para uma aliança?
Imbassahy – O PSDB tem esse e outros quadros na Bahia em condições de se candidatar até a governador. A presença do PSDB na disputa majoritária, com candidato ou na chapa, é natural e deve ocorrer.

TB – Sua trajetória política ficou marcada até aqui principalmente pela passagem como prefeito de Salvador, em dois mandatos (de 1997 a 2005). Mesmo de longe, tem acompanhado o trabalho do prefeito Bruno Reis (DEM)? O que tem achado?
Imbassahy – Tenho sim. Estou vendo que a cidade está bem cuidada. Estive recentemente com Bruno Reis. Conversamos sobre a questão do transporte público, que tem sido um problema nesse momento de crise. A experiência de São Paulo, tanto do estado quanto da capital, pode contribuir muito para a superação desse problema, sobretudo em relação à integração de modais.

TB – As eleições de 2022 se aproximam. Você pensa em voltar para a política, concorrendo a algum cargo eletivo?
Imbassahy – Na verdade, eu nunca me afastei da atividade política. Só que vou continuar mais vinculado à política nacional, claro que sempre olhando com carinho a política na Bahia, onde minha vida pública foi toda feita. Não pretendo me afastar da política, mas no momento estou focado na missão de ajudar o estado de São Paulo. Ajudando o estado de São Paulo, que é uma locomotiva nacional, estamos ajudando também a Bahia.

14 de julho de 2021, 15:52

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