Um fino frio, por favor – por Ernesto Falcón
Como um bom apreciador de cervejas, flexível quando o assunto é degustação de uma nova marca, sou fascinado por cenas pitorescas vividas em uma mesa de bar. Ouço e respeito teorias diversas em relação ao surgimento ou descoberta da cerveja e do vinho.
Alguns desses entusiastas partem do ponto de que, mesmo antes de surgirem as primeiras aldeias na Mesopotâmia, nossos ancestrais já consumiam um líquido alcoólico resultante da fermentação de cereais. Na verdade, especula-se que a cerveja, assim como o vinho, tenha sido descoberta acidentalmente como resultado da fermentação ocasional de algum cereal como o trigo ou a cevada, quando se buscava fazer pão.
Mas deixemos de lado o solo fértil da Mesopotâmia em direção à terra mãe, a África. Nossas conexões são seculares. Desde o tráfico de escravos oriundos da Baía de Luanda durante o colonialismo português.
O fato é que muitos brasileiros vivem em Angola e muitos angolanos vivem hoje no Brasil. Numa dessas missões especiais, estava eu em Talatona, província da região metropolitana de Luanda, num domingo de sol rasgante. Escolho um bar Tuga (português), chamo o garçom e peço um chope gelado.
Um amigo mineirinho já experiente no convívio mangolê, baixou a cabeça e começou a rir. Minha reação de imediato foi olhar para o garçom e encará-lo com ar de desentendido. Estava tudo esclarecido. O garçom jamais saberia o que era um chope gelado. Em terras angolanas, chope vale como fino e o gelado como frio.
Fora o mico que eu passei, percebi que, além da irmandade histórica por mais trágica que ela seja, os angolanos se conectam também com o nosso paladar. Conexões culturais, comportamento social, culinária – bebida – e religião reforçam a teoria das placas num só bloco. Heranças e dessemelhanças entre Angola e Brasil.
Muitas diferenças sociais existem nesse país, no entanto, o povo angolano é otimista e, assim como nós, bebe muita cerveja. Fora a importação, Angola produz apenas três marcas de cerveja, todas lagers (cervejas leves, de baixa fermentação). A mais consumida pelos angolanos é a Cuca, com 4,5% ABV (Alcohol By Volume) feita com malte e milho, que resulta numa combinação muito próxima das nossas pilsens.
Logo atrás vem a Eka, principal concorrente, com 5,0% ABV e a Nocal, também com 5,0% ABV. O meu paladar preferiu a Cuca, que caiu no gosto de milhares de brasileiros que por lá passaram.
Ernesto Falcón é jornalista, editor do site de notícias Toda Bahia, co-autor da coluna de cervejas especiais Brew, Bier, Bière e do blog www.brewbierbiere.com com José Lopes. E-mail: ernesto.falcon@todabahia.com.br








