sábado, 25 de abril de 2026

B.B.: entre a vanguarda e o conservadorismo, permanece a musa controversa (em muitos sentidos)

Foto: Reprodução

Carlos Baumgarten

Mesmo afastada das telas há mais de cinco décadas, é impossível dissociar o nome de Brigitte Bardot — ou simplesmente B.B. — da história do cinema moderno. A atriz francesa, que morreu no domingo (28/12), aos 91 anos, marcou uma era, influenciou a moda e o comportamento e tornou-se um dos rostos mais emblemáticos da Nouvelle Vague, movimento vanguardista do cinema europeu.

O que podemos chamar de “espírito Bardot” impregnava a tela de forma magnética. No filme que a projetou internacionalmente, “E Deus Criou a Mulher” (1956), dirigido por Roger Vadim, a atriz surge em um primeiro plano, tomando sol em um quintal, entre roupas penduradas no varal, como se fosse apresentada ao mundo em estado bruto. Também é emblemática a cena em que dança mambo, livremente, embalada pela percussão latina.

Sua persona pedia papéis à frente de seu tempo: mulheres livres, que falavam abertamente sobre desejo e sexualidade. À época de “E Deus Criou a Mulher”, Bardot era casada com Vadim, que acreditava que a companheira ainda não havia alcançado o reconhecimento compatível com seu talento e carisma.

Apesar de censurado em diversos países, o filme foi um enorme sucesso nos Estados Unidos e deu origem à chamada “Bardot mania”, espalhando-se pelo mundo. Até então, o estrelato internacional era quase exclusivo das atrizes de Hollywood. Mesmo assim, Bardot manteve-se fiel ao cinema francês, recusando convites de grande visibilidade — entre eles, o papel de bond girl em “007 – A Serviço Secreto de Sua Majestade” (1969).

Ao lado de Jean-Luc Godard, um dos principais expoentes da Nouvelle Vague, viveu uma de suas parcerias mais produtivas. Dela nasceu uma das cenas mais célebres — e também mais debatidas — de sua filmografia. Em “O Desprezo” (1963), filme que retrata a lenta corrosão de um casamento, a atmosfera pesada do drama contrasta com as cores vibrantes de um paraíso italiano.

Nos bastidores, os produtores exigiam, mais uma vez, a exploração explícita da nudez de Bardot. Godard, porém, subverteu a expectativa ao optar pelo erotismo sugerido. Em uma cena à meia-luz, o casal protagonista aparece na cama: ela nua, mas nunca inteiramente exposta à câmera. Enquanto isso, Camille, personagem de Bardot, questiona o marido Paul (Michel Piccoli) sobre seu interesse por cada parte de seu corpo. A sutileza transformou o momento em uma das sequências mais memoráveis do filme e marcou a última colaboração entre atriz e diretor.

Brigitte Bardot encerrou sua intensa carreira cedo — pouco antes de completar 40 anos. Passou então a dedicar-se à causa animal, fundando, nos anos 1980, uma instituição que leva seu nome. Curiosamente, embora tenha personificado na tela mulheres que desafiavam convenções, Bardot envolveu-se, nas últimas duas décadas, em sucessivas polêmicas, incluindo acusações de racismo e xenofobia, que resultaram em processos judiciais.

Filha de um industrial e oriunda de uma família abastada, Bardot rebelou-se contra os padrões de seu tempo durante os anos de glória no cinema. Ainda assim, nos últimos anos de vida, chegou a se declarar contrária ao feminismo e a reafirmar posições conservadoras. No espectro político, declarou apoio à família Le Pen (primeiro, o pai e, mais recentemente, a filha), da extrema-direita francesa, o que colocou o próprio governo de seu país em uma situação delicada ao discutir formas de homenageá-la.

É possível que aquelas breves duas décadas em que Bardot ditou moda e comportamento por meio de suas personagens tenham, de fato, marcado uma era com prazo definido. Não seria exagero dizer que a musa do cinema francês deixou de existir simbolicamente em 1974, quando saiu de cena. Mas, como toda lenda, a imagem que permanece no imaginário coletivo é a da mulher que, por meio da arte, desafiou convenções e abriu caminhos para muitas outras que vieram depois.

29 de dezembro de 2025, 13:29

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