Cinema memória e justiça histórica no novo documentário de Dandara Ferreira
Da redação
A cineasta, roteirista e pesquisadora soteropolitana Dandara Ferreira traz para as telas um dos registros mais densos da história recente do Brasil com o seu novo documentário, intitulado Anatomia do Caos, que tem estreia nacional agendada nos cinemas para o dia 2 de julho. Em um depoimento compartilhado no registro em vídeo a diretora baiana revelou que a urgência em idealizar o longa-metragem surgiu ainda no ano de 2021, no auge da crise sanitária provocada pela Covid-19, impulsionada pelo entendimento de que o período representava um dos acontecimentos mais traumáticos da memória contemporânea do país.
Com uma marca de mais de 700 mil vidas perdidas, Dandara destaca que, por trás de cada estatística, restaram famílias profundamente marcadas pela ausência e uma nação que ainda encontra dificuldades para elaborar plenamente o seu luto coletivo. Diante desse cenário, a obra assume um caráter investigativo e histórico ao acompanhar de perto os desdobramentos, depoimentos e bastidores da CPI da Covid no Senado Federal, uma comissão parlamentar de inquérito que, segundo a cineasta, representou um momento fundamental para a manutenção da própria democracia brasileira. Para a diretora, o Parlamento assumiu uma responsabilidade institucional crucial ao buscar respostas e apurar as ações e omissões governamentais no enfrentamento da crise no momento em que a sociedade mais exigia transparência.
Ao defender o papel social e transformador de seu ofício, a realizadora soteropolitana pontua que o cinema carrega uma função intrínseca de utilidade pública, servindo não apenas para provocar reflexões profundas na sociedade, mas também para salvaguardar narrativas que correm o risco de ser apagadas pelo tempo. Dandara reforça que a concepção de Anatomia do Caos se consolidou como um manifesto essencialmente político e, acima de tudo, como um gesto humanitário de profunda solidariedade direcionado às vítimas fatais da pandemia, aos seus familiares e a todos os cidadãos que compartilham da premissa de que a preservação da memória coletiva é, também, um mecanismo indispensável para a construção da justiça histórica no país.
Antes de se debruçar sobre os bastidores da política nacional em Anatomia do Caos, a diretora natural de Salvador já acumulava uma trajetória de reconhecimento no audiovisual, marcada pela investigação da cultura, da música e de grandes personalidades brasileiras. Dandara ganhou ampla projeção ao idealizar, roteirizar e dirigir a minissérie documental O Nome Dela É Gal, lançada em 2017 pela HBO, que destrinchou a vida e a carreira da cantora Gal Costa em quatro episódios repletos de depoimentos de nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Maria Bethânia. A forte ligação com a trajetória da artista baiana a levou posteriormente para o cinema de ficção, onde co-dirigiu, ao lado de Lô Politi, a cinebiografia Meu Nome É Gal, lançada nos cinemas em 2023 com Sophie Charlotte no papel principal. O longa retratou os anos de formação da cantora e a efervescência cultural da Tropicália, garantindo à cineasta soteropolitana uma indicação na prestigiada lista de destaques do ano da revista Forbes.
Além disso, sua filmografia documental também inclui a direção do longa-metragem Vou Tirar Você Desse Lugar, que circulou por diversos festivais e mostras de cinema, consolidando sua assinatura em produções focadas na identidade e na memória artística do Brasil.








