quinta-feira, 30 de abril de 2026

Especial Garziera 100 Safras: A videira e o poeta – por José Falcón Lopes

Foto: Divulgação

Uma videira da espécie Vitis vinifera, da variedade Cabernet Sauvignon, plantada há cerca de 40 anos na Fazenda Milano, em Santa Maria da Boa Vista, do lado pernambucano do Vale do São Francisco, é a personagem principal desta impressionante história de amor na vitivinicultura brasileira.

A muda desta videira de Cabernet Sauvignon é francesa da gema, com origem na nobre região de Bordeaux, sendo um resultado de um cruzamento natural da elegante variedade tinta Cabernet Franc com a altiva e ácida variedade branca Sauvignon Blanc. Ela foi trazida para o Brasil pela vinícola francesa Maison Forestier, que se instalou na década de 1970 na cidade de Garibaldi, na Serra Gaúcha. Por essas coincidências da vida, Garibaldi é a cidade natal do viticultor Jorge Roberto Garziera, fundador do Grupo Verano Brasil e o poeta da nossa história.

No último sábado, 20 de setembro, Dia do Gaúcho, um evento exclusivo chamado de “O Legado em 100 Safras” marcou o início da produção do vinho Garziera 100 Safras, um rótulo icônico, 100% Cabernet Sauvignon, que terá uma produção limitada de cerca de 1,2 mil garrafas e que só deve chegar ao mercado no final de 2027.

Sócio-diretor de Enologia do Grupo Verano Brasil, Rodrigo Fabian foi o idealizador deste marco na história do Vale do São Francisco. Ele explicou que o evento teve como objetivo provocar reflexões nos seus participantes. “Por 100 vezes alguém veio aqui nessas plantas e fez a poda, fez a desfolha e neste momento as suas uvas estão sendo colhidas pela centésima vez para virar vinho. As pessoas já se embriagaram de alegria, de paz. Quantos casais já tomaram garrafas de vinho feitas com essas uvas em momentos a sós? Quantos amigos já beberam este vinho ao fazer um churrasco? Agora vocês também vão fazer parte dessa história da gente, desse legado de 100 safras”, comemorou.

O Poeta

Gaúcho, filho de imigrantes italianos e taurino, Jorge Garziera é triplamente vocacionado para a agricultura. Ele traz na sua personalidade algumas características marcantes das pessoas que nascem sob o signo de Touro: são apaixonadas pelas causas com as quais se comprometem e costumam ser sonhadores, leais, trabalhadores e teimosos. Tão teimosos a ponto de vencerem muitas questões e desafios pela persistência, pela resiliência.

Debaixo das folhas e cachos da videira de Cabernet Sauvignon, Jorge Garzeira contou que chegou ao Vale do São Francisco no dia 09 de dezembro de 1975 para trabalhar como consultor de viticultura na Fazenda Milano, que pertencia ao empresário italiano Franco Persico, fundador da famosa indústria metalúrgica Persico Pizzamiglio.

“Eu tinha sempre esse sentimento de que daria certo. Eu vi o dia de hoje há 50 anos. Sou teimoso, eu sou de maio, signo de Touro. Não é qualquer coisa que me faz parar, desistir. Pelo contrário. Tem que me provar que eu tô errado e as plantas também. Numa determinada época, já em 1978, depois de idas e vindas, com amor, com paixão, com sentimento e com meu pai de coração, Seu Franco Persico, que enxergou em mim um filho, tudo o que eu podia querer e ter, todos os meus sonhos ele me ajudou a construir”, contou.

Ele observou que todos os tubos de aço presentes no parreiral da Fazenda Milano foram fabricados pela Persico Pizzamiglio. “Não entrava dinheiro, mas vinham materiais. Tubos e fios e arames. Era uma carreta pendurada na outra. Eu dizia ‘esse cara tá doido’. Mas ele entendeu, provavelmente até mais do que eu, porque ele tinha uma sabedoria maior, ele foi um homem que fez guerra, que viveu a guerra, que vivia na Itália, que vendia tapetes persas, que viajava de navio e tinha mil histórias para contar, ele me ajudou muito, me abriu muito a cabeça nesse sentido de acreditar nesses sonhos. […] Ele brincava que a gente estava aqui pra ganhar dinheiro e não para fazer poesia”.

A Poesia

A marca de vinhos finos Garziera tem por slogan “poesia engarrafada”. Jorge Garzeira contou, entretanto, que foi por acaso que ele tirou feixes de uma coleção de Vitis vinifera da Maison Forestier que tinha vindo da França, provavelmente, variedades sãs, sem vírus.

“Sem querer, eu acertei. Essa bichinha aqui tem essa origem. Me lembro como se fosse hoje, eu com uma tesoura de poda. Eu, Roque Calhara e Ademir Brandelli fomos tirar galhos para poder fazer um feixe e trazer pra cá. Nós colocamos cera nas pontas para não desidratar com facilidade, envolvemos em papel jornal e a cada posto que a gente abastecia o carro a gente molhava as mudas para elas não secarem. Quatro dias de viagem tomando vinho e comendo pão e queijo para não parar nos caminhos, para não demorar. Chegamos num domingo aqui. Atolei o carro lá na entrada. Tinha uma guaritinha com Zé Vaqueiro e muriçoca para dar e vender. Tive que dormir no carro. Tá louco”, brincou.

Ele explicou que as mudas foram plantadas no viveiro em pé franco (plantadas diretamente no solo) para depois multiplicar o material com o porta-enxerto. “Dessas trinta e tantas variedades, eu só fazia a conta no sentido de produção, não fazia a conta no sentido do vinho que ia dar. Tínhamos Pinot Noir, Pinotage, Zinfandel, todas as variedades que tinham lá no viveiro da Maison Forestier. Ficamos com Cabernet Sauvignon, Pinot Noir e das brancas Chenin Blanc, Moscato Canelli, eram umas sete variedades que eu entendia que valia a pena. Isso foi em 1984, 1985”, destacou.

Quando a Fazenda Milano conseguiu colher 1200 quilos de uvas viníferas, foram enviadas cerca de 200 caixas com as uvas por avião, via Varig, para Gladistão Omizollo, o enólogo da Maison Forestier e também para Rinaldo Dal Pizzol, da Vinícola Dal Pizzol, para vinificação. “Até então eu fazia vinho aqui em panela, a minha geladeira era o frio, o filtro era o papel Melita e era por aí os primeiros vinhos que a gente fazia. Tudo bom pra gente, tá? (risos) Mandávamos para eles e depois de dois, três anos o Gladistão disse ‘opa! Aí tem coisa! Já dá pra gente fazer alguma coisa!’. Tínhamos Chardonnay, Chenin Blanc, ele cheirava e dizia ‘olha aqui o maracujá e tal’, eu não entendia coisa nenhuma (risos). Ele dizia que dava para investir, dava para multiplicar para plantar”, contou.

Neste ponto da história, Jorge Garziera lembrou que Seu Franco gostava do vinho italiano da DOCG Brunelo Di Montalcino, feito 100% com a variedade de uva Sangiovese. “Um dia ele foi para a Itália, mas não podia trazer mudas de uva no avião. Ele enrolou os galhos numas calças, botou dentro da mala, chegou em São Paulo e trouxe para cá e disse ‘Jorge, multiplique isso aqui porque vai dar os melhores vinhos do mundo’. Ele naquela paixão e eu só dizia ‘sim, senhor, sim, senhor, vamos para cima também’. Os primeiros vinhos que foram feitos de Sangiovese – é difícil falar de um negócio desse – estão enterrados junto com ele, na casa dele aqui na Fazenda Gabriela. Nós fizemos os rótulos de mimeógrafos. É uma história sem fim”, resumiu.

Jorge Garziera concluiu seu relato destacando que a vitivinicultura só é boa se for boa para todos. “Só é bom se todas as pessoas que vivem e convivem conosco são felizes, estão em paz, contribuem e podem fazer acontecer. Mais do que tudo, a gente precisa se realizar como pessoa, estar em paz e contribuir para este Nordeste querido, que tem todas as condições para a gente realmente fazer acontecer. O Nordeste é bom, os nossos vinhos são bons e nós precisamos valorizar mais do que ninguém. Se a gente não falar dos nossos produtos, quem vai falar? Parece que foi ontem. Tudo isso que passou foi ontem. Agora vocês imaginem o que tem daí para a frente. Nossa Senhora! Tudo por fazer. Salute! Grazie! Buongiorno!”, concluiu.

Este colunista teve a honra de participar dessa programação histórica na Fazenda Milano a convite do Grupo Verano Brasil. Esta série, que homenageia o vinho Garziera 100 Safras, é composta por quatro artigos. Os próximos textos irão tratar do terroir dos vinhos com Indicação de Procedência Vale do São Francisco (IPVSF), do trabalho dos enólogos no processo de vinificação e da sensibilidade do designer gráfico na criação deste rótulo tão especial.

José Falcón Lopes é hispano-brasileiro, jornalista formado na Facom-UFBA e autor da Coluna VinhosBahia.
E-mail: colunavinhosbahia@gmail.com
Instagram: @VinhosBahia

25 de setembro de 2025, 13:46

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