terça-feira, 10 de março de 2026

EXCLUSIVO: Entrevista com o vitivinicultor Marcos Ferreira, proprietário do Vinhedo Pedra do Rio, o primeiro de Jequié

Foto: Divulgação

por José Falcón Lopes (colunavinhosbahia@gmail.com / @VinhosBahia)

“Que o Sertão do Médio Rio de Contas produz umbú de qualidade todo mundo já sabe. O que queremos descobrir agora é se conseguimos produzir uvas e vinhos de qualidade”. A afirmação corajosa é do biólogo Marcos Ferreira, que há cerca de 1 ano deu início ao Vinhedo Pedra do Rio, um projeto-piloto de vitivinicultura no sertão de Jequié, no Sudoeste Baiano.

Apaixonado por plantas, Marcos Ferreira tem feito os testes de adaptação das uvas viníferas ao terroir do Médio Rio de Contas com pelo menos seis variedades: Marselan, Cabernet Sauvignon, Syrah, Grenache, Touriga Nacional e Sauvignon Blanc.

Nesta entrevista exclusiva para a Coluna VinhosBahia, nossa primeira publicação em 2026, compartilhamos o belíssimo sonho do vitivinicultor Marcos Ferreira: “Que em breve possamos brindar com mais um vinho baiano… neste caso, um sertanejo”. Boa leitura.

Coluna VinhosBahia: Você pode falar um pouco da sua formação profissional e da sua relação com o mundo dos vinhos?

Marcos Ferreira: Como biólogo tenho dedicado grande parte da minha vida à pesquisa e ao ensino nas áreas de Botânica e Propagação Vegetal. Para mim, a videira não é apenas uma produtora de bebida; ela é um sistema botânico fascinante, um organismo que desafia e interagem com o ambiente para expressar vida e sabores. Sou, acima de tudo, um curioso e ainda pouco conhecedor de vinhos. Mas uma curiosidade fundamentada no método científico. Minha aproximação com o mundo enológico foi moldada por observações de campo e viagens que mudaram minha perspectiva sobre o mundo da vitivinicultura.

Em viagens a Argentina fui apresentado ao poder do Malbec. Não só como bebida, mas como uma cadeia produtiva. Ali, entendi como uma cepa pode se tornar a identidade de uma região quando encontra o solo certo. E nas andanças pela Bahia, após conhecer as vinícolas da Chapada Diamantina me encantei com o legado e o desenvolvimento das videiras às margens do Rio São Francisco. Ver a força da viticultura tropical em pleno semiárido despertou em mim a vontade de aplicar meu conhecimento em botânica para buscar uma nova fronteira.

Hoje, o Vinhedo Pedra do Rio é o laboratório onde unifico essas experiências. Não sou um enólogo de formação, mas sou um apaixonado por plantas. Minha relação com o vinho tem crescido junto com a busca por entender como a fisiologia da videira conversa com esse solo, e de forma especial com o aparentemente inóspito granito de 3 bilhões de anos em Jequié.

A WinIA persona que reuni nossas ferramentas de IA surge justamente para ser o braço tecnológico dessa minha visão biológica, ela traduz os dados que a botânica me ensinou a observar, permitindo que a gente decodifique dados e informações, e potencialize praticas capazes de promover a expressão de saúde vegetal e equilíbrio ecológico do vinhedo. Pensando um dia em ter tudo isso sintetizado numa garrafa do vinho do Sertão de Jequié.

Coluna VinhosBahia: Como e quando surgiu a ideia de produzir uvas viníferas no Sudoeste da Bahia?

Marcos Ferreira: A ideia não surgiu de um estalo repentino, mas de um processo de observação biológica e territorial. Como biólogo, eu sempre olhei de forma especial a região de Jequié, que estar numa transição entre a mata atlântica e a caatinga, com grande biodiversidade e solos bem diversos. E ao conhecer a região do Lago da Barragem da Pedra e compará-la com outras regiões que conseguiram transformar sol e agua em agricultura de resultados, vinha o questionamento: Por que não?

O ‘como’ se deu pela análise de três fatores que se alinharam: a herança do São Francisco (observando o sucesso do Vale do São Francisco, entendi que o semiárido baiano tinha uma vocação natural para a viticultura, mas que cada microclima exigia uma ‘chave’ diferente; eu queria encontrar a chave do Sertão de Jequié); o Microclima da Barragem (ao observar a dinâmica da Barragem da Pedra, que ao represar o Rio de Contas forma uma lamina d´água de mais de 70Km, percebi que tínhamos um fator termorregulador valioso, o espelho d’água e as correntes de ar criam um frescor noturno (amplitude térmica) que é o segredo para a elegância das uvas viníferas nos vários terroir que tem características como as nossas); o Granito Ancestral (quando entendi a relação entre vinho e solo e conhecendo a geologia local com solos oriundos do Complexo Jequié, percebi que tínhamos um diferencial que poucos lugares no mundo possuem, vi ali a chance de produzir uvas e sonhar com um vinho de rocha, com uma mineralidade especial).

O ‘quando’ tomou forma definitiva há pouco mais de um ano, em janeiro de 2025, quando decidimos sair do plano das ideias e iniciar o plantio experimental com 08 cepas em 05 porta enxertos, num total de 300 plantas viníferas e 50 de mesa. Assim nasceu o Vinhedo Pedra do Rio, com determinação, ciência e a vontade de provar que o nosso Sertão pode produzir vinhos finos. Onde muito só enxergam rochas, nós estamos acreditando na produção de vinhos.

Coluna VinhosBahia: Você acha que as condições dessa região são favoráveis ao surgimento de um novo terroir, um terroir sertanejo?

Marcos Ferreira: Eu não diria apenas ‘favoráveis’, eu diria que esse terroir já existe e está sendo decodificado agora. O que estamos presenciando aqui no Vinhedo Pedra do Rio, após 12 meses de trabalho e muitas observações é o surgimento do ‘Terroir de Transição do Rio de Contas’. Ele é diferente do que conhecemos no Vale do São Francisco ou nas Chapadas e planos de altitude. Depois de muitas observações e conversas com viticultores experientes e pesquisadores. Identificamos três pilares que poderia ajudar em nossa caminhada e que tornam este ‘Sertão’ único e promissor:

A Herança Geológica: Estamos sobre o Complexo Jequié. São rochas de 3 bilhões de anos, que resultam em solos únicos. Quando uma videira mergulha suas raízes nesse solo oriundos da decomposição do granito arqueano, ela não está apenas buscando água; ela está extraindo uma mineralidade ancestral que tem potencial para transmitir as videiras e por consequência ao vinho uma estrutura especial é raríssima em regiões tropicais.

O Microclima da Barragem: A proximidade com o espelho d’água do Lago da Barragem da Pedra funciona como um regulador térmico. Isso nos permite ter noites frescas, em uma faixa capaz de preservar a acidez das uvas — essencial para vinhos de qualidade.

A Viticultura de Precisão: Não estamos tentando lutar contra o clima, estamos em sintonia com ele. Estamos usamos dados e inteligência artificial para processar informações, padrões e correlações, para entender o momento exato de cada manejo e até das faixas de altitude das linhas de plantio, variando de 260 a 350m, recebendo assim uma brisa que ameniza o calor do sertão.

Portanto, acreditamos que o Sertão não é apenas um lugar de resistência; é um lugar de relevância enológica. Muitos olham para o sertão e veem dificuldade. Nós olhamos para este granito primitivo e as manchas de solos vermelhos e vemos, um terror novo apenas esperando a tecnologia certa para ser revelado. Mas vinho e prudência não fazem mal a ninguém. Estamos trabalhando e anotando cada etapa para num futuro próprio ter certeza que estamos diante de um novo terroir sertanejo ou de transição entre a mata e a caatinga.

Coluna VinhosBahia: Você tem buscado apoio e parcerias com instituições como a Embrapa, por exemplo?

Marcos Ferreira: Temos tido conversas com diversas instituições e trocado informações com pesquisadores e técnicos, porém ainda são diálogos informais, que no momento devemos esperar um pouco mais para formalizar parcerias e também detalhar possíveis colaborações. Por hora seguimos plantando e monitorando as diversas cepas que estão crescendo no Sertão de Jequié.

Coluna VinhosBahia: Quais cepas têm apresentado melhor adaptação ao terroir do Rio de Contas?

Marcos Ferreira: Trabalhamos hoje com um portfólio de variedades selecionadas para o clima de transição, incluindo Marselan, Cabernet Sauvignon, Syrah, Grenache, Touriga Nacional e Sauvignon Blanc. Sobre a adaptação, os dados e as observações de campo nos mostram dois destaques surpreendentes neste primeiro ano: a Marselan se adaptou de forma extraordinária ao solo de granito. É uma uva que busca estrutura, e aqui em Jequié ela apresentou um vigor controlado e uma sanidade foliar impressionante; e a Grenache tem apresentado bom desenvolvimento foliar e vigor. Nossa expectativa é que a brisa da barragem permita que ela mantenha a delicadeza. Ela se recuperou com uma velocidade incrível após o período de chuvas, o que nos faz acreditar no potencial dessa cepa em possíveis blends tropicais ou vinhos rosé. As variedades de ciclo mais longo, como a Cabernet Sauvignon, também estão indo bem. Com evidencias que sinalizar que nosso microclima esta em harmonia e afinidade com uvas que valorizam a mineralidade e a estrutura do solo. É importante destacar que além das cepas viníferas (copas), estamos testando várias opções de porta enxertos e já com alguns padrões interessantes e promissores.

Coluna VinhosBahia: Em quanto tempo você espera ter resultados seguros de que é viável encarar uma produção de uvas viníferas com fins comerciais?

Marcos Ferreira: Em um projeto de viticultura, a paciência é um ingrediente técnico. Mas, graças à tecnologia, estamos acelerando a curva de aprendizado. Eu divido essa resposta em três tempos:

O Tempo da Planta (Imediato): No primeiro ano, que completamos agora, já tivemos o resultado mais importante: a viabilidade vegetativa. As plantas não apenas sobreviveram ao semiárido, elas prosperaram. A adaptação da Marselan e da Grenache
ao granito de Jequié já é um dado seguro.

O Tempo da Taça (Julho de 2026): Nossa primeira colheita experimental em julho/agosto será o ‘divisor de águas’. Ali teremos a prova real do potencial do fruto para fins enológicos. Resultados seguros sobre o perfil sensorial do vinho esperamos
conseguir no início do primeiro semestre de 2027.

O Tempo do Mercado (2027/2028): Para uma produção comercial de escala e segura, trabalhamos com uma janela de 3 a 4 anos a partir do plantio inicial. É o tempo necessário para a planta atingir a maturidade fisiológica e a nossa IA ter dados históricos
consolidados para garantir constância na qualidade.

Muitos produtores esperam 10 anos para conhecer seu terroir. Com o monitoramento de precisão estamos ‘comprimindo’ esse tempo. Já sabemos o que o solo precisa e como o clima da barragem se comporta. Portanto, a viabilidade comercial não é mais uma dúvida, é uma questão de cronograma de maturação e escala de negócio. O nosso objetivo com a safra experimental de 2026 é justamente apresentar o ‘Protótipo’ desse terroir para o mercado. Não estamos apenas plantando uvas, estamos validando um novo modelo de negócio para um até então desconhecido terroir.

Coluna VinhosBahia: Tem mais alguma informação que você acha importante compartilhar com os leitores da Coluna VinhosBahia?

Marcos Ferreira: É importante destacar que o Vinhedo Pedra do Rio funciona como um “Laboratório de Terroir ao Ar Livre”. E que nossos resultados são preliminares e com muito critério estamos focados em avaliar o desenvolvimento das cepas e o potencial nessa região. Estamos testando como as mesmas variedades se comportam em diferentes altitudes da encosta e distâncias da barragem. Com ajuda da IA, estamos mapeando essas microdiferenças para entender, por exemplo onde a Marselan poderá entrega mais cor e onde a Grenache entregará mais perfume. E para aumentar o desafio estamos iniciando o plantio da famosa Malbec e da elegante Tempranillo. Outro ponto a destacar foi nossa opção por um manejo com práticas da agricultura regenerativa. Olhamos o solo tentando entender além da química, é sobre biologia. Estamos experimentando o uso de microrganismos e bioinoculantes (como o Trichoderma, Azospirillum, Pseudomonas e Subtilis), para fortalecer as raízes e folhas contra o estresse ambiental e eventuais limitações de nutrientes no solo, a exemplo do Fosforo. Queremos avaliar e mensurar como um solo vivo é capaz de produzir com muito mais identidade do que um solo dependente apenas de sintéticos.

No Vinhedo Pedra do Rio, não estamos apenas plantando uvas; estamos semeando uma ideia e colhendo dados para embasar uma viticultura de alta eficiência e resultados no Sertão do Médio Rio de Contas. Mas, finalizando gostaria de destacar que apesar dos promissores resultados, a ponto de neste momento estarmos ampliando o vinhedo em mais 450 plantas, com o plantio de mais cepas e principalmente mais plantas das que tem apresentado melhores resultados (Marselan e Grenache). Temos um desafio ainda muito longo pela frente.

 

01 de fevereiro de 2026, 08:44

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