quarta-feira, 29 de abril de 2026

EXCLUSIVO: Uma aula sobre a vitivinicultura brasileira com o Professor Fábio Lenk no Campus Internacional del Vino da Unirioja

Foto: Divulgação

por José Falcón Lopes (colunavinhosbahia@gmail.com / Instagram @VinhosBahia)

Um verdadeiro embaixador da produção vitivinícola do Brasil em meio às atividades do Proyecto Enorregión-Campus Internacional del Vino da Universidade de La Rioja (Unirioja) na Espanha. Assim tem sido o pós-doutorado do enólogo e Professor Doutor Fábio Laner Lenk, que é vinculado ao curso de Viticultura e Enologia do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), Campus São Roque.

Com doutorado em Agronomia pela UNESP, o Professor Fábio Lenk e sua esposa, a Professora Doutora Tarina Unzer Macedo Lenk, acabam de concluir um pós-doutorado pelo Proyecto Enorregión e também pelo Insituto de Ciencias de la Vid y el Vino (ICVV) também na Espanha.

Na última semana de novembro, ele apresentou o curso “Vinos espumosos de Brasil, referencia de calidad en el Nuevo Mundo” no campus da Unirioja, em Logroño. A Coluna VinhosBahia estava presente e, além de assistir a aula, participou da “cata” (degustação) comandada pelo professor Fábio Lenk.

Ele apresentou os três tipos de viticultura que existem no Brasil – tradicional (uma safra), dupla poda de inverno (uma safra) e tropical (duas safras e meia) – e analisou dados atuais sobre a produção e o consumo mundial de vinhos e espumantes. Para concluir os trabalhos com primor, ele apresentou quatro espumantes do Brasil de altíssima qualidade e um Cava (espumante espanhol) produzido na Denominación de Origen Calificada (DOCa) Rioja, na seguinte ordem: Espumante Moscatel Faces do Brasil da Vinícola Lídio Carraro (RS), Cava Lumen Brut Reserva das Bodegas Bilbaínas (DOCa Rioja) e os espumantes Cave Amadeu Brut, Cave Geisse Nature e Cave Geisse Blanc de Noirs, todos três produzidos pela vinícola Família Geisse (RS).

Depois da brilhante aula-degustação, o professor Fábio Lenk bateu um papo exclusivo com a Coluna VinhosBahia sobre as principais tendências e desafios do mundo dos vinhos, que você pode conferir a seguir. Boa leitura.

Coluna VinhosBahia: Como começou a sua parceria com o Proyecto Unirregiòn aqui da Unirioja?
Professor Fábio Lenk:
 É uma planificação da nossa família, eu já tinha morado fora, minha esposa também e a gente já vinha vislumbrando isso para agregar no nosso currículo. A Espanha veio muito por um acaso porque uma amiga em comum nossa, a Ariana Sgarioni. E também o Rafael Vicchini. Eles possuem uma empresa no interior de São Paulo, em Jundiaí, que se chama EnoConexão, já tinham me falado que tinham visitado aqui a Unirioja e tinham conhecido a Professora Marta María Inés Dizy Soto (coordenadora do Proyecto Enorregión), em 2021 ou 2022 eu acho, não me lembro se a gente já tava na pandemia. Eu sei que daí a gente amadureceu a ideia de fazer o pós-doutorado no exterior. A Ariana passou o contato da Marta, eu escrevi pra ela, mandei um currículo dizendo que eu tinha interesse em conhecer a região. Ela é professora na graduação de enologia e também investigadora no Instituto de Ciencias da Vid y del Vin (ICVV). Perguntei se havia algum experimento, alguma coisa e antes da gente fazer qualquer coisa, ela já propôs um acordo de cooperação entre a Unirioja e o Instituto Federal de Sao Paulo (IFSP). Aí já foi em dezembro de 2023. A gente assinou o acordo de cooperação e nesse mesmo mês de dezembro de 2023, fomos agraciados com duas bolsas de mestrado para alunos nossos. Eles vieram participar da primeira turma do mestrado em Enoturismo pela Unirioja. 

A partir disso, a Marta foi ao Brasil para fazer apresentações no evento da EnoConexão. A professora María Elena González Fandos (Unirioja) também. A gente foi estreitando a relação e fizemos a planificação para poder vir para cá. Então foi um planejamento que começou no início de 2023 para ser concretizado com a nossa vinda em novembro de 2024, mas os alunos chegaram antes. Ao mesmo tempo, ficou muito forte esse programa de mobilidade internacional porque os nossos estudantes de graduação do Instituto Federal de São Paulo como um todo, não só do Campus São Roque onde eu trabalho, estão vindo estudar na Unirioja. 

Coluna VinhosBahia: Essas atividades que você tem apresentando aqui fazem parte do Proyecto Enorregión?
Professor Fábio Lenk:
Sim. Eu fiquei vinculado ao Proyecto Enorregión fazendo essa parte de divulgação, eu e a Tarina. Ela mais na parte do enoturismo e eu na parte de produção técnica. No ICVV, eu fiquei trabalhando muito com variedades resistentes, num projeto que eles têm com as variedades PIN, que são resistentes a doenças, são híbridas. E também com o manejo da videira, vinificações e tudo mais. As nossas apresentações presenciais aqui acabaram Foram seis ou sete palestras falando da produção de vinhos em geral no Brasil, de vinhos de inverno, de vinhos tropicais, de manejo e essa última agora de espumantes. Agora só teremos atividades online.

Coluna VinhosBahia: As atividades serão apenas online a partir de agora?
Professor Fábio Lenk:
A princípio sim. Os projetos continuam, a gente agora vai receber o professor José Miguel (Unirioja) em fevereiro de 2026 e lá a gente já vai planificar projetos em conjunto, que depois a gente tem que dar devolutiva.

Coluna VinhosBahia: Qual foi o critério para a escolha das marcas apresentadas durante as suas palestras?
Professor Fábio Lenk:
O critério inicial sempre foi divulgar as empresas que estão envolvidas e apoiando as nossas atividades na graduação no IFSP. Então já é um histórico de relacionamento, que ficou mais facilitado até por essa questão de trazer os vinhos para cá. Até porque o Brasil não tem exportação de vinhos para cá ainda, então a gente teve que ir por esse caminho.

Coluna VinhosBahia: Como tem sido a recepção dos espanhóis para os vinhos brasileiros?
Professor Fábio Lenk:
  Primeiro ninguém sabe aqui que se produz vinhos no Brasil e quando a gente mostra essa particularidade nossa de utilizar três técnicas de manejo distintas, três viticulturas diferentes, eles ficam loucos, eles acham incrível, ninguém acredita.

Coluna VinhosBahia: O acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia deve ser assinado ainda este ano. Como esse acordo vai impactar no mercado de vinhos do Brasil?
Professor Fábio Lenk:
Para o vinho brasileiro será mais um grande desafio. Por causa dessa questão das tarifas norte-americanas, que tem sido o principal mercado dos vinhos europeus, que ficou estagnado principalmente para os vinhos com maior volume de produção e que têm um ticket médio mais baixo. Com essa situação, os europeus vão ter que mirar em outros mercados. O acordo Mercosul-União Europeia deve baixar as tarifas para todo mundo, então vai começar uma pressão muito forte no mercado brasileiro para o consumo de mais vinho importado, que antes era muito restrito a Chile, Argentina e algum acordo bilateral com Portugal. Agora vão chegar com força os vinhos da França, da Itália e da Espanha, principalmente dos vinhos com ticket médio mais baixo.

Coluna VinhosBahia: Não existe a possibilidade do Brasil conseguir exportar pelo menos os espumantes para a Europa?
Professor Fábio Lenk:
Acredito que sim. A gente viu isso na degustação hoje. Todos ficaram impressionados com a qualidade dos espumantes brasileiros e com a comparação com o cava os nossos se saíram tremendamente bem. Deixamos o patamar de ser um produto exótico e passamos a ser um produto de alta qualidade. Então, se eu tivesse na prateleira os dois produtos com o mesmo preço, o consumidor já levaria o espumante brasileiro. 

Coluna VinhosBahia: Dos cinco espumantes que degustamos, você pode dizer qual é o seu favorito?
Professor Fábio Lenk:
Ah, vai depender da ocasião. Eu gosto muito do perfil do Nature, que é um vinho mais seco, com menos açúcar. Mas o Blanc de Noir também foi muito bem e me surpreendeu muito a linha do Cave do Amadeu pela qualidade. 

Coluna VinhosBahia: Tem uma última informação que você acha importante compartilhar com os leitores?
Professor Fábio Lenk:
Mostramos aqui vinhos do Vale do São Francisco, vinhos do Sul do Brasil e do Sudeste. Todos ficaram muito impressionados com a qualidade dos nossos produtos. O que a gente precisa é ter um setor mais estruturado, que dê condições para o produtor colocar um preço mais competitivo. Acho que o brasileiro tem que olhar mais para o nosso vinho. O enólogo brasileiro acaba “tirando leite de pedra” porque ele não tem as mesmas condições ideais que se tem aqui na Europa, mas consegue fazer produtos de altíssima qualidade e consegue fazer diferentes tipos de produtos. Os enólogos europeus são muito especializados na região deles e a gente consegue ser quase que especialista em qualquer região. A gente faz espumantes, vinhos brancos, vinhos rosés, vinhos tintos, consegue elaborar todos com muita maestria.

04 de dezembro de 2025, 02:36

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