segunda-feira, 23 de maio de 2022

Quem emprestou a São Jorge o dragão?

Foto: Reprodução

Davi Lemos*

Se Djavan tivesse nascido no primeiro milênio da era cristã, na Europa Ocidental, e não fosse nosso contemporâneo e brasileiro conterrâneo, dificilmente pediria, em “Se”, para que São Jorge lhe emprestasse um dragão. Por que será? Ao menos no Ocidente cristão, essa fábula sobre Jorge da Capadócia e sua luta contra um dragão para salvar uma princesa só começou a ser contada na segunda metade do século XIII, numa metáfora que representava a luta do bem contra o mal.

A narrativa da luta contra um dragão montado em um cavalo branco remonta a histórias de heróis e cavaleiros próprias à era medieval – antes disso, o santo venerado por cristãos católicos, ortodoxos, anglicanos e, no Brasil, pelos adeptos das religiões de matriz africana, era representado com uma Cruz, numa referência a Cristo Crucificado, e por uma espada, não mais a do guerreiro que serviu ao imperador romano Diocleciano, mas como referência ao Evangelho, “mais penetrante do que uma espada de dois gumes” (cf. Hebreus 4, 12).

São Jorge da Capadócia morreu em 23 de abril de 303, durante a perseguição do imperador romano Diocleciano aos cristãos. Antes de ser decapitado a mando do imperador, Jorge foi amarrado a uma roda cheia de espadas, jogado em caldeirão com chumbo derretido, mas a tudo isso sobreviveu, dizem os relatos hagiográficos, ao fazer o sinal de Cruz. Além dos sinais da Cruz e da espada, Jorge vinha quase sempre acompanhado nas imagens pelos pais São Gerôncio e Santa Policrônia, de quem recebeu a fé cristã desde o berço. Por sinal, Policrônia também foi açoitada ao lado do filho, pois o imperador descobriu que ela o visitava no cárcere para mantê-lo firme na fé em Jesus Cristo – Gerôncio, segundo os relatos, já havia morrido quando Jorge foi martirizado.

Nos relatos sobre o martírio de Jorge, principalmente os ligados à Igreja Ortodoxa e ao Catolicismo Oriental (este unido ao papa), há uma menção à fala de Cristo, que teria visitado a Jorge no cárcere. “Sê forte e anima-te, Meu amado Jorge, pois eis que fortalecer-te-ei para suportar a todos esses sofrimentos. Juro, por Mim mesmo e por todos os Meus anjos, que dentre os nascidos das mulheres ninguém se manifestou maior que João, o Batista, e que depois de ti ninguém manifestar-se-á semelhante a ti. […] Três vezes morrerás e Eu te ressuscitarei, mas, após a quarta, Eu mesmo virei sobre uma nuvem e te levarei ao lugar seguro que preparei para a tua santa morada. Sê forte e não temas, porque Eu estou contigo”, disse Jesus ao fiel encarcerado.

É daí que remonta outro epíteto para São Jorge, o de Megalomártir, ou “O Vitorioso”; muito usado entre católicos orientais e ortodoxos. Tamanha foi a resistência do mártir ao flagelo imposto a mando do sanguinário Diocleciano, que há relatos recentes de que, quando invocado em exorcismos, Satanás se enfurece e teme mais que quando invocados quaisquer outros santos que não sejam a Mãe de Jesus ou o próprio Cristo que, para os cristãos, é Deus encarnado.

Voltando à iconografia do santo posterior ao século XIII, a Cruz vermelha sobre a armadura – adotada quando a Inglaterra, que tem São Jorge como padroeiro, adornou sua bandeira com este sinal – e o cavalo branco também têm origem no mesmo período. A profusão de versões e mitos sobre a vida de São Jorge se deu por conta da transmissão de sua hagiografia de maneira oral, em distintos povos, de línguas e culturas diversas – primeiro na tradição oral da Capadócia e depois em algumas partes da Lídia e Nicomédia.

Sobre a luta com o dragão, há histórias contadas no Líbano – diz-se que, em Beirute, o bicho devorava quem passava por uma estrada – e também na Geórgia, em Kiev (Ucrânia), na Sérvia e em Bizâncio. A vida de São Jorge é tão rica de detalhes – reais ou míticos – que somente um artigo não bastaria sequer para enumerar todas as variáveis sobre a existência do Dragão, também sinal da antiga serpente que tentou Adão e Eva, conforme relato de Gênesis, ou do Dragão descrito no Apocalipse (12, 3), o que varreu um terço das estrelas no Céu.

O fato é que o “empréstimo” do dragão à iconografia do santo capadócio está tão arraigada à sua imagem que muitos julgam que o usufruto tornou-se perpétuo. Tenho para mim que Djavan quando, na mesma “Se”, nos faz cantar “Você disse que não sabe se não / Mas também não tem certeza que sim” também se dirige a este cenário confuso que junta santo, dragão, princesa, martírio e milhões de fiéis de Jorge ao redor de mundo. Salve, Jorge, o Vitorioso!

*Davi Lemos é jornalista e pesquisador de santos católicos

23 de abril de 2022, 17:29

Compartilhe: